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Consultório Poético


Rolo Compressor:
comentários sobre futebol

Blog

Sábado, Fevereiro 28, 2009

FUTEBOL TRANSFORMISTA



"Em mais uma manifestação de prepotência, a FIFA apagou nossas sugestões das novas regras do futebol. Joseph Blatter agora finge que não nos conhece. Temos os protocolos de registro e todos os documentos. Enquanto você está lendo, nossos advogados estão em Zurique (Suíça) processando a entidade. Nenhuma de nossas medidas foi discutida na 123ª reunião da International Football Association Board (IFAB), que ocorreu na manhã desse sábado (28/2), na cidade inglesa de Newcastle."

Confira o regulamento revolucionário que estragaria o futebol para sempre no blog ROLO COMPRESSOR.

8:20 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

CHAMANDO OS PÁSSAROS
Arte de Frida Kahlo

Fabrício Carpinejar



Confessar uma mentira não me torna verdadeiro.

Praticar uma loucura não me torna louco.

Bem sei que nasci num mundo que cansou de ultrapassar os limites, decidiu retroceder as barricadas e moralizar as sobras. Azar é o meu.

Varremos as cicatrizes para debaixo das tatuagens.

Somos bem mais conservadores do que nossos avôs. Desejamos uma fantasia romântica, mas percorremos a mesma única estrada. A que nos ensinaram a ir à escola. Há outras vias baldias e escuras que não são descortinadas - e orvalham quietas pelo excesso de vidro.

Lamento que ninguém mais tome carona no amor - é só dirigindo. Não suportamos que os outros não nos entendam. Um amor tem que ser público, não pode ser proibido, profano, incompreensível, enigmático, atávico, selvagem. Não pode acontecer na cozinha e no banheiro, no elevador e na garagem. Tem que ser visto. Defendemos o orgulho e a vergonha no lugar do mistério e do segredo. O que não pode ser contado passa a não existir. Não deixaremos um testamento - ele já foi feito. Não deixaremos a relíquia fechada de uma carta que talvez nos explique no fim da vida. Não haverá a nostalgia imponderável perante as janelas – todos estão em casa. Somos viúvos da própria vida.

Esvaziamos o nosso fim desde o nascimento. Não sobrevivemos à clandestinidade. Resolutos, claros, transparentes; o desvio é doença, o estranho é feio, o medo é hostilidade.

Tudo que é diferente é encaminhado como louco. Tudo que é imaginoso é dito como mentiroso. Busco meu filho na escola e escuto o chiado das cigarras na boca alheia entoando que é maluco alguém escrever Jesus na cabeça. Não me preocupo, aprendi na roça: cigarras nunca morrem, apagam-se.

Como avisar que dentro do guarda-chuva existem facas para cortar a luz? Como avisar para desdobrar a vareta e jogar fora a lona?

Como avisar que os telhados são caminhados?

Como avisar que encontro mais astúcia no desespero do que na tranqüilidade?

Cumprimento o crepúsculo com o menear do chapéu. Sou antigo para receber o sol, novo para desobedecer a noite. Há duas formas de loucura. A loucura triste, que se guarda para nunca gastar o corpo, e a loucura alegre, que esquece o corpo para protegê-lo.

Loucura alegre não vai se arrepender daquilo que tentou porque ela não tenta, ela é, quem tenta procura um resultado que não virá e será uma loucura triste. Loucura alegre é a matemática pictórica de Escher (subir as escadas de um prisma). Ou as cores berrando de Frida Kahlo (deitar numa banheira eletrocutada pela paisagem). É a voz rouca de Tom Waits (cantar como se não estivesse acordado). E o desfiladeiro dos dentes brancos da negra Billie Holiday (alfaiate da voz).

Loucura alegre não se preocupa com migalhas. As migalhas chamam os pássaros.

Loucura triste emburrece a esperança. Pede para cobrar, reprime para deprimir, manda para calar. É uma tristeza sem cócegas. Quem não ficou com a gente é mau caráter. Quem ficou é acomodado.

Loucura alegre tem suspiro. O suspiro é a escada rolante da lembrança. Quem não suspira não tira o gemido da risada.

Minha loucura é uma alegria para depois que chega antes. Aconselho a enlouquecer comigo e odiar minha conversa. Mas que seja um ódio criativo.

9:13 AM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

GRAMÁTICA DO AMOR
Arte de Giacometti

Fabrício Carpinejar



Não me adaptei para as mudanças ortográficas. Não estudei a fundo a reforma a ponto de adotá-la. São idéias. São vôos. Pêra continua com a casca. Pêlo segue sem depilação. Heróico ainda é covarde.

Não é preguiça, queria que fosse resistência ideológica.

Mas estou envolvido com as alterações na gramática do amor, que me tomam a concentração e o abajur. Comparo o que fui com o que sou, resvalo em dupla falta: de sono e de insônia. Não consigo dormir e ficar acordado. Uma enxaqueca vocabular que não diminui com os olhos fechados. Uma pontada das pupilas até para recordar. Não imaginava que teria que usar óculos para a memória.

Depois de separado e agora namorando, não posso me distrair um momento. Meu corpo fora condicionado a chamar uma mulher. A agradar uma mulher. A me socorrer dela. E ela não está mais comigo. Procuro me desvencilhar da telepatia formada numa década de casamento. Não chegava a pensar: assobiava vontades. Passava a boca sem olhar. Reservava cidades e cadeiras em mim. Além do passado, eu amava o que viria a acontecer com ela. Meu futuro estava assinado - esforço-me para riscar os traços sem adulterar, sem ninguém notar a substituição das manchas. Falsifico minha letra para parecer convincente. É como mudar de assinatura para me roubar. É como assumir uma casa no campo e diluir toda uma vida feita para chamar atenção.

Há excessos de pressentimento no amor. Há muitas lembranças com nome nas costas que não cheguei a viver. Há costas em minhas atitudes que não enxergarei. Uma predisposição que não é mais dela, sequer é minha.

Mergulho confuso nas regras.

Há uma divisão terrível de personalidade, que planeja e não diz, que reage e requer controle, que seca quando jorra. Estou em licença, abstinência. Enfrento um período de revisão, tenho que desejar duas vezes para não cometer gafes. Assombrado de crueldade comigo e com quem me acompanha.

Eu me arranquei da rotina e as palavras que usava agora não tremem mais. Sou um adulto desenhando a grafia e perdendo o sentido que vinha da pressa.

Não me refiro a trocar o nome da ex-mulher com a de minha namorada. É insignificante perto do que pratico. Mais grave, mais infiel, mais triste pelo constrangimento que crio e que escapa dos filtros. Articulo o nome, duro é conter o que não tem nome que corre pela intuição.

É estender o cigarro para a namorada que não fuma. Perguntar se ela gostou de rever um restaurante que não conhecia. São vislumbres da minha incapacidade de conversar corretamente e não absorver o idioma de um novo amor. Meus pecados nunca se falaram tanto. Descubro que minha melhor caridade vem dos pecados.

Não é ausência de cuidado, mas uma dependência que não se cura de imediato.

Em nossos hábitos familiares, existia uma brincadeira que fazíamos nas estradas. Ao passar pelo controle de velocidade, tentava marcar com o velocímetro a idade dos passageiros. A minha, da ex-mulher, dos filhos. A cada acerto, comemorávamos cantando U2. Convertíamos a censura do radar em adoração do tempo.

Em viagem pela serra, ao lado de minha namorada e com meus filhos no banco de trás, atravesso um dos controladores, e assinalo 39. Grito histérico; festejo com naturalidade:

- Viva! Quem tem 39?

Todos se calam. É a idade da minha ex-mulher.

Talvez seja hora de ser multado pela lentidão do raciocínio.

12:32 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

DENTES DE LEITE
Fotografias de Vicente

Fabrício Carpinejar













Vicente me lê. Ele me desprotege com sua proteção natural. Eu me descuido para cuidá-lo. Não me defendo para entendê-lo.

Ao lado dele, nunca me machuco. Não vacilo em pena. Não me vejo sem sentido. Não me faço mal. Seu amor me inspirou a ser generoso comigo. Eu me amo a partir dele. Nunca gostei tanto do que sou depois que passou a me desenhar.

Não me abandona nos hábitos: põe meus óculos de mosca, dorme com minhas camisas largas e brilhantes, diz que sou diferente para ser bonito duas vezes (com susto e sem susto). Ele usa minha estranheza para que eu pareça menos estranho. Quando recebo uma crítica, atropela as vogais para me ajudar a esquecer rápido. E dança com sapatos grandes e perucas imitando músicas da televisão.

Ele é a paternidade que encontrei para morar mais perto da minha infância. Permito-me carências adultas. Uma noite sem ele e um dia sem ele são absurdos de ausência. Sinto saudades de mim com ele. Minha caligrafia é entranhar as mãos em seus cabelos argentinos e massagear sua nuca.

A verdade é que invejo meu amor por ele. Tenho que dissimular um pouco senão posso torturá-lo com tanto amor. Escondo para que ele não se dê conta de tanto que o amo. Temo massacrá-lo de cuidados, afagos, ternuras. Há que respeitar um espaço, um quarto, uma poltrona dentro de casa para me odiar. Mas cometo avareza em minha generosidade e não o largo sozinho para me contrapor. Não desmonto o quebra-cabeça para não extraviar alguma peça.

Se precisar limpar a casa, brincamos de sugar um e o outro com aspirador. Se digo que preciso viajar, ele prepara as malas com suas roupas. Ele ama fácil. Ama sem traumas, sem desculpa, sem provas, sem convencimento. Ama porque é mais fácil amar do que viver - e eu sempre acreditando no contrário.

Andamos de bicicleta por Porto Alegre. A alegria é descer as maiores lombas como a Lucas de Oliveira e a Bordini. "O medo tem que conversar sem gritar", ele me explica. Somos o fonoaudiólogo do medo.

Estou em falta com algumas perguntas feitas pelo meu menino no carro: qual o peso de um cavalo? Aproveito para responder com um dia de atraso: 500 quilos. O boi segue a meia tonelada. Sei que provocarei novas curiosidades. Como sua distância da Groenlândia.

Sua mãe deve enlouquecer como eu com o milagre de pijama, comendo pãozinho com queijo e tomando leite de manhã num prato azul. Mais do que eu, pois o milagre saiu de seu corpo.

Vicente completa sete anos nesta sexta (20/02). Os dentes de leite estão caindo. "Queria que meu dente curtisse mais minha boca", confessa.

Eu também quero ficar mais tempo em sua boca. Todo o tempo em sua boca.

Desconheço mesmo o quanto que a memória de meu filho pesa na minha palavra. Vou demorar para não concluir.

6:33 PM :: Comentários:

PECHINCHA
Arte de Alberto Savinio

Fabrício Carpinejar



O estudante gaúcho Gabriel terminava sua viagem pelo Egito, depois de passar por sete cidades com a mochila nas costas. Prometeu comprar uma lembrança a um amigo.

Encantou-se com casaco numa banca de rua do Cairo. Lã crua. Era seu último dia. Gatos e camelos passeavam como primos pelas vielas. Patos e galinhas engaiolados nem se importavam. Indigência respiratória. A luz não era mais lavada para não ser vendida. O rio Nilo cansou de lamber suas patas.

O vendedor anunciou o preço. Não, ele pechinchou. Tudo é sorteado por lances, inclusive o que não pode ser comprado como mãe, avô e a própria esperança.

O Juízo Final é um leilão. O diálogo foi gravado (algaravia é um termo mais apropriado) e trato de traduzir:

- Sou fã dos brasileiros, os brasileiros são os melhores, preparei um valor muito especial.
- Qual?
- 120 dólares
- Não posso, é um presente para um amigo, pago até 45.
- 100 dólares, minha última oferta.
- O sr. não me entendeu, só posso pagar 45, é um presente para um amigo, não é para mim.
- 90 dólares, e não conte para ninguém.
- O sr. não me entendeu, é um presente para um amigo, o máximo é 45.
- 80 dólares, é pegar ou largar?
- Largo então, pago 45, não mais do que isso.
- Tá, estou entendendo, ofereço por 70 dólares.
- Eu não estou negociando, é um presente para um amigo, 45 ou nada.
- 60 dólares e não falamos mais disso. 60? E porque sou fã dos brasileiros, Pelé é brasileiro, você é brasileiro.
- Esquece... O sr. não compreende: era um presente para um amigo e tenho apenas 45.

Gabriel virou as costas e mergulhou na indiferença do trânsito. Avançou duas quadras quando percebe que o mercador corre no seu encalço e alcança seus ombros, sôfrego e abatido.

- Espera, espera, faço por 45 dólares. Sou fã dos brasileiros, os brasileiros são os melhores.
- Faz? Mesmo?
- Sim, 45, e todos ficaremos felizes.
- Agora não quero mais.



1:05 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

ORA BOLAS



"O jogador não conversa mais com a bola no momento de bater uma falta, pois é apenas um artigo esportivo de fácil reposição (assim como ele). Não estala os lábios no ventil à procura da benção paterna, do beijo materno, do ânimo para acertar. O futebol é uma religião de ateus."

Entenda a minha tese um tanto esquisita sobre o extravio da alma da bola no blog ROLO COMPRESSOR.

10:19 AM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 15, 2009

DOMADOR ENTRE LEÕES INSPIRADOS
Poesia Completa mostra por que a arte de José Paulo Paes incomoda a tradição

Fabrício Carpinejar
Foto Celso Júnior/AE
Especial ao Estado



Dez anos após sua morte, a poesia de José Paulo Paes continua viva. Por mais que desmentisse em vida, a responsabilidade é somente dele. Relembrando suas palavras: "Os poetas não vivem da piedade dos necrologistas: vivem da atenção dos leitores." Paes (1926-1998) diverge do hermetismo de boa parte do cenário brasileiro.

Autor do pouco, tipógrafo (como seu avô) do verso. Encaixava as palavras mais do que costurava, como um crítico cultural, um debochado político, um espevitador incansável dos costumes. Nunca menosprezou a comunicação lírica, suas ideias vinham com legibilidade garrafal, para serem bebidas no primeiro contato. Aproximou-se incrivelmente do público, tanto em seus artigos como em sua lírica e literatura infanto-juvenil.

Destoa também das correntes catárticas, caudalosas, nerudianas. Das páginas chorosas, copiosas, que dependem de um prendedor e um varal para secar. Não foi adepto do sentimentalismo biográfico. Atrás das cortinas, longe do centro do palco, reservando-se a condição de narrador do que a de personagem. Seus episódios familiares são raros e apenas servem a uma observação aprofundada dos dramas e desventuras filiais.

Optou por ser um domador num mundo cheio de leões inspirados. Articulador do mínimo, tradutor inveterado do grego, representou um símbolo de honestidade intelectual. Sem panelas, sem tribos, com a solidão de tingir uma letra depois da outra.

Com o lançamento pela Companhia das Letras de seus ensaios Armazém Literário, e de sua Poesia Completa, encontram-se os motivos de sua permanência incômoda dentro de nossa tradição.

Sua virtude inicial é a discrição. Pensava a literatura como um todo, abrindo-se a compreensão de um sistema literário, como em sua investigação do pobre-diabo na nossa literatura (Nazazieno de Os Ratos, de Dyonélio Machado), uma espécie de refração aos romances proletários. O herói fracassado sinalizava a separação irrecuperável e sadia entre artista e o Estado.

Portanto, não modelava suas teses para explicar a própria poética, como a maioria de seus contemporâneos costuma fazer. Ele não usou a crítica para legitimar seu percurso criativo. Tampouco empregou outros nomes para validar sua poesia de mais de cinco décadas, que começa com a publicação de Aluno, em 1947.

Seus ensaios perseguem uma idéia de provocação, incluir quem está excluído e perceber o que está à margem. Daí a preciosidade da reflexão sobre o estilo pornográfico de Glauco Mattoso, impondo seu refinamento diante dos estereótipos de desorientação e desinformação creditados equivocadamente ao movimento marginal. Temas chulos, sim, mas com toda a alta cultura satírica e erótica, digna de Aretino e Safo de Lesbos.

Pena que o Armazém Literário não insere artigos sobre escritores que permanecem resguardados nas fronteiras regionais, como Armindo Trevisan e Flávio Luis Ferrarini, ambos gaúchos, e que foram estudados na obra Os Perigos da Poesia. Seria mais uma oportunidade de frisar sua condição de pensador livre e contrário ao establishment editorial. A seleta inclinou-se a reunir pontos de vista mais panorâmicos e menos circunstanciais. De qualquer modo, há uma visada corajosa em defesa da religiosidade de Jorge de Lima e da bagunça transcendente de Murilo Mendes. Dois poetas - reitero - que nada têm em comum com a poesia de José Paulo Paes. O crítico paulista caracteriza Invenção de Orfeu, de Lima, como um magma verbal. Se alguém o aponta como um fracasso, contextualiza que é "um grandioso e desafiante malogro que convida à perene visitação".

A segunda qualidade é sua arte de experimentar. Talvez exercendo um duplo-emprego, revitalizando na escritura sua condição alquímica de farmacêutico. Mistura reagentes, propõe soluções, atravessa diferentes movimentos e tubos de ensaios para equacionar a calidez de sua voz. Não esconde as influências, efetua homenagens a Mário e Oswald de Andrade, Drummond e Augusto de Campos. O Aluno é drummondiano até a medula; Novas Cartas Chilenas é uma sátira a Tomás Antonio Gonzaga, Anatomia flerta com o movimento concretista e o poema-piada.

O autor que afamou a cidade de Taquaritinga (SP) conversa ombro a ombro com seus contemporâneos, recusando a submissão e o tráfego de simples emulador. Preconiza igualmente fórmulas. Epigramas, de 1958, pode ser entendido como um alicerce espiritual de Museu de Tudo, de João Cabral, de 1975, com textos dissecando figuras intelectuais.

O terceiro ingrediente invejável é a modéstia, ampliada pela autocrítica permanente. Paes não se elogia, não entra na complacência e na vitimização. É mordaz consigo e com os outros. Desperta confiança pela objetividade carismática. Não perde a consciência da finitude e de sua estatura provisória. Da sua falsa neutralidade, aceita o ridículo de estar se despindo e se aceitando.

Um exemplo contundente é o poema que abre A Poesia Está Morta, Mas Juro Que Não Fui Eu, em que confessa que copiou, com diligência, vários e vários escritores até que - em desespero de causa - chegou a se imitar.

A brevidade de seus versos tranca a risada no meio. Poeta que ri sério, deixando a palavra gargalhar no lugar da boca. Dono de um humor extremista, escasso na poética brasileira, que vem temperado com nostalgia e uma visão lúdica da intimidade.

Ironia que é o eixo de sua trajetória. Tira um sarro inclusive de sua geração 45 (inofensiva, apesar do calibre de arma de fogo) e não poupa a malta de conterrâneos ambiciosos:

"Fica na minha sombra
Não te salientes
Que quando eu ganhar o Prêmio Nobel
Te dou um pedaço"

(Socráticas, 2001)

Em Prosa Seguidas de Odes Mínimas, Paes atinge seu grande momento lírico, revivendo pai, avô e os loucos da rua, além de tecer fotografias de ouvido de seus utensílios pessoais como a bengala, o alfinete, o espelho e os óculos (realiza na poesia o que J.J. Veiga empreendeu nos contos de Objetos Turbulentos). A meditação sobre a ausência de sua perna esquerda é umas das mais destacadas demonstrações de distanciamento comovente de nossa língua. Retrata a evolução do pensamento de um amputado, desde o desespero à aceitação sarcástica do sacrifício.

"Nenhuma perna é eterna", diz, com serenidade filosófica.

José Paulo Paes caminhava com as mãos. Não buscava chamar atenção do poeta, esse ser tão aéreo e frugal, mas de sua poesia, tão constante e particular. Imortalizou o efêmero.

* Fabrício Carpinejar é escritor e jornalista, autor de Canalha!, entre outros


Poesia Completa
José Paulo Paes
Companhia das Letras
512 págs., R$ 59


Publicado no jornal O Estado de S.Paulo, caderno Cultura, página 4, 15/02/09

8:26 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

EM TODO LUGAR
Desenho de Vicente

Fabrício Carpinejar



Não desconfiei quando ela atravessou a cidade para abastecer seu carro num posto de gasolina.
- É o meu predileto, disse minha namorada. Só abasteço aqui.
- Isso que é fidelidade, respondi.

A gasolina pode estar faltando num extremo de Porto Alegre, a reserva do tanque tem que agüentar até o seu posto, não o primeiro que surgir, nem um reles qualquer. AQUELE! É uma corrida enervante e asmática com a quilometragem na ponta do lápis.

Ela me seduz com frases dóceis de que lá o combustível é melhor, puro, que rende bem mais. A sorte é que não entendo patavina de automóvel, abano a cabeça por não me sentir apto a explorar minha contrariedade. Nunca mexi num motor, nunca troquei um pneu, nunca fui capaz de pegar um carro no tranco. Eu apenas me retiro de uma conversa quando não dá para ganhar.

Estava dizendo não desconfiei, o correto é "desconfiei tarde demais".

Quando inventamos de aprontar um churrasco, ela saltou na minha jugular:
- Tenho o lugar, tenho o lugar! É carne de primeira!

Aceitei, ela me seduziu com frases dóceis de que lá a carne é melhor, direta de São Borja, que é macia e seria fatiada com uma colher. A sorte é que não entendo patavina de carne, abano a cabeça por não me sentir apto a explorar minha contrariedade. Nunca assei uma picanha, nunca segurei num espeto, nunca preparei um morrinho de carvão com uma garrafa no meio. Eu apenas me retiro numa conversa quando não dá para ganhar.

Saímos da Bela Vista para o bairro Menino Deus. Dispensável comentar a distância. Enorme. O equivalente a Visitar meia metrópole ou escutar dois cds inteiros de Drexler.

Partimos ao açougue do Moacir. Com o azedume típico de um escorpião em conserva, aventei a hipótese de ser vegetariano. Mas engasguei ao imaginar onde ela adquiria verduras e frutas.

Descobri que é numa feira na Cidade Baixa. É fácil chegar. A histeria temporal é que somente acontece no sábado, de tarde, com a interrupção do trânsito na rua Vasco da Gama. Ela não vai levar os produtos do supermercado como a maioria dos comensais. Espera uma semana para cumprir um rancho com seu feirante predileto. Sabe inclusive o nome de seus filhos. Ele seleciona melão, alface, tomates, uvas e objetos não identificados. Sem o seu feirante, a geladeira não existe. É carestia bélica por sete dias.

Seu salão de beleza fica no bairro Santana, sua livraria está localizada no Iguatemi, seu massagista em Assunção. Não há meio-termo, concessões, torturante discutir alternativas, é onde freqüenta, aprendeu a admirar e ponto final. Isso é o que chamo de personalidade, sou um adolescente espremendo espinhas perante suas decisões.

Era o paraíso enquanto permanecia girando pelo carrossel da cidade.

Com uma dor súbita nos dentes, ela avisou que marcaria uma consulta odontológica. Não captei a solenidade da advertência, pois me perguntou, não comunicou simplesmente.
- Claro, resolva o quanto antes.

De volta ao trabalho, confidenciou que separou uma hora no final de semana.
- Final de semana?
- Sim, no sábado, é mais fácil ir para Torres.
- Torres?

Seu dentista mudou o consultório para o litoral gaúcho. Foram cerca de 200 quilômetros para curar uma cárie. Virei motorista de caminhão (com saudade de minha vida de taxista).

Tremo quando ela agendar a consulta com a ginecologista. Vá que seja no Amapá.

6:25 PM :: Comentários:

"OS CONSELHOS NÃO FORAM ORDENS"



Respondi entrevista de Giselle Marques. Está na rede. Com fotos proibidas e respostas curtas e vulcânicas.

Parte I - Nascer e existir

Você prefere a noite ou o dia? Para quê cada um?
Manhã e noite para escrever.
Manhã porque estou tão disposto que posso me dominar.
Noite porque estou tão cansado que não vou mentir.

Acredita em astrologia?
Somente o suficiente para não desacreditá-la.

Em que horas você nasceu? Com qual peso e tamanho?
Às 14h do dia 23 de outubro de 1972, no Hospital Pompéia, em Caxias do Sul (RS).
Desconheço o peso e tamanho, acho que meu nascimento não mereceu anúncio em jornal.

Sua mãe chegou a lhe contar como foi seu parto? Como foi seu parto?
Normal. Mas fiz um longo ensaio no dia 21 de outubro. A mãe foi para o hospital, convicta do nascimento. Era seu terceiro filho. E as pontadas e o trabalho de parto ficaram adiadas. Nasci treinado. Fiz minha mãe arrumar a mala duas vezes.

Cor e clima que fazem bem para seu humor?
Praia, mar e a brisa debaixo de árvores.

Bebida que não pode faltar?
Jack Daniel's

Situação para sentir: "posso morrer agora que morro feliz"?
Nascimento de Vicente e Mariana. Mas é na maior alegria que renovamos o pacto de viver. Morrer é desistência, vou morrer contrariado.

Medo de algum tipo de morte?
Atropelado.

Carinho indispensável?
Adoro raspar a barba pelos seios. Adoro quando a boca e mão andam juntas, em sincronia.

Curiosidade: qual o número do seu sapato?
40

Qual a vantagem de uma pessoa ser considerada mais inteligente do que bonita? E vice-versa?
Não há vantagem, desse jeito é compensação.
Acredito que inteligência é beleza.

Por que as pessoas se dizem tão desinteressadas em manter um relacionamento estável?
Pelo medo tremendo de depender de alguém. As pessoas sofrem a perda antecipadamente e deixam de se entregar.

O amor está fora de moda?
O amor não é negócio.

Acredita em Deus? Tem religião?
Sim, sou católico. Meu santo padroeiro é Francisco de Assis.

Time de futebol?
Internacional. Fanático.

Pintar as unhas para não lavar a louça: essa tática ainda funciona com sua esposa mesmo depois de declarada na mídia? O que seu filho acha de ver você com as unhas pintadas de preto?
Eu estou separado, agora pinto as unhas para sempre lembrar que minha mulher foi decisiva para amadurecer e entender os outros. Meu filho curte, ele me defende. Não será preconceituoso. Temos movimentos de regente, conversamos com as sobrancelhas.

Qual a sensação de ser pai? E de ser filho depois de ser pai?
Ser pai é finalmente aceitar a intuição.
Ser filho depois de pai é entender que os conselhos não foram ordens.

Quantas horas de sono você necessita por dia?
Cinco horas. Acordar é sempre melhor do que meus sonhos.

Como são seus sonhos enquanto dorme? Algum que tenha marcado a memória?
Na adolescência, sonhei que subia uma escada de anjos. Faltavam alguns degraus, estou esperando o conserto até hoje.



Parte II - Ser escritor e escrever

Autores e autoras preferidas? Quem influenciou você na escrita?
Machado de Assis pelo humor.
Lezama Lima pela imagens.
Cesare Pavese pela melancolia.
Manuel Bandeira pela malícia e simplicidade.
Drummond pela timidez ofensiva.
Clarice Lispector pela investigação do sentimento.
Goethe pelo pensamento organizado.

Quantos livros você tem publicado? Qual deles foi mais "dolorido" de escrever?
13 livros. O mais dolorido: "Um terno de pássaros ao sul", que abriu minha sensibilidade, rompi os diques e os pudores, deixei a memória falar pela primeira vez sem interrompê-la.

Um livro que todos deveriam ler e por quê?
Vida, Modo de Usar, de George Perec, para reparar mais nos vizinhos.

Qual a dor e a delícia de ser escritor?
Eu danço com os lábios, deito no próprio rosto.
Escrever é alumbramento, não se acostumar com a infância.

Como você definiria o seu lado jornalista?
Teimoso, vou procurar sempre o ângulo menos conhecido de um fato.

Para quais veículos você escreve atualmente?
O Estado de S.Paulo, revista Crescer e faço uma página na Caras. Colaboro com a rádio Itapema a partir de comentários culturais e realizo entrevista com escritores na Rádio Unisinos.

Alguma matéria ou personagem que tenha mudado seu modo de ver a vida e o mundo?
Sérgio Farina, professor de São Leopoldo. Ele não era um homem, mas uma fruteira de frases.

Você está a par das mudanças da nossa gramática? Alguma delas incomoda você enquanto escreve?
Não colocar mais o hífen em alguns vocábulos, demorei tanto para decorar as exceções.

Que tipo de erro que você mais abomina em um texto?
Arrogância.

Com a Internet, o vocabulário de muita gente está empobrecendo. Você pensa que isso tem conserto ou que está tudo perdido?
Nunca escrevemos tanto. A leitura é que enriquece o vocabulário, além de possibilitar uma maior concentração depois na conversa.

Após o reconhecimento do público, quem mais assedia você? Escritores? Poetas? Mulheres? Homens? Jornalistas?
Mulheres. Recebo um grande volume de correspondência feminina sobre as questões amorosas.


Parte III - Canalha!

Quantos exemplares foram publicados?
Está na 2ª edição, cada tiragem com mais de 3 mil exemplares.

Quem está na capa do livro Canalha!?
Não revelo. Mas é parecido comigo, não?

Qual a idéia você pensou em passar com a capa? "Me joga na parede e me chama de lagartixa"?
Eu já sou a parede.

Por que Xico Sá foi o escolhido para a orelha do livro Canalha! ?
Ele é um canalha legítimo, como as havaianas.

Quais crônicas publicadas em Canalha! trazem mais orgulho para o escritor Carpinejar?
Tampinhas do leite. Uma ode ao casamento.

Como foi o feedback da publicação? Você sentiu o mesmo estardalhaço em relação aos outros livros?
Foi explosivo, acho que toquei na crise heterossexual. Homem não entende bem qual é hoje o seu lugar - está conhecendo de perto a incerteza e com grandes possibilidades de se reinventar mais arejado, viril e emotivo.

Quem você percebe ser o público leitor de Canalha!?
Todos. Não seleciono os amigos. Eu não me protejo para conhecer, conheço para amar.



Parte IV- PING-PONG - pá-pum!

Cinema: Tarkovski
Televisão: Sportv
Música: Tom Waits
Livro: Divina Comédia, Dante
Mulher: Emily Dickinson
Homem: John Malkovich
Cantada: Sem lugares comuns
Sexo: Pensar é aperfeiçoar o desejo.
Gafe: Esquecer nome das tias.
Família: Tudo o que aprendi.
Casamento:Tudo o que guardei.
Amor: Tudo de tudo.
Milagre: Dormir até o meio-dia.
Depressão: Só tristeza passageira.
Euforia: Por uma palavra nova.
Pele: Dormir de conchinha.
Perfume: Bulgari
Água: Guarapari
Natureza: Serra gaúcha
Cidade: Porto Alegre
Viagem: Lisboa
Desejo: Nunca terminar de começar.
Raiva: Melhor do que ódio.
Perdão: Excitante.
Deus: Abraço o vento.
Diversão: Jantar com os amigos.

Uma frase para os leitores do blog:
A esperança não é discreta.

5:26 PM :: Comentários:

CONHEÇA OS TIPOS DE CAFAJESTE



Ajudei a revista Marie Claire (edição de janeiro, número 214) a reconhecer um cafajeste e enxergar os sinais de perigo. Confira os tipos e as opiniões dos especialistas. Aqui.

5:10 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

ENCADERNADO PELA IMAGINAÇÃO
Arte de Leonardo da Vinci

Fabrício Carpinejar



Na véspera do ano letivo, eu adivinhava que ficaria a noite acordado com a minha mãe na cozinha.

Ela comprava blocos simples para seus quatro filhos, já que não tinha recursos suficientes para adquirir cadernos de capa dura.

Uma tristeza me abatia no início; uma frustração, nunca poderia competir com as figuras de desenho animado das capas da turma. Pernalonga, Mickey e Cebolinha sorriam nas mesas ao lado. Queria ser como eles, não diferente.

Meus cadernos vestiam roupas iguais às minhas, sem estampas.

Alheia ao meu desapontamento, ela tomava folhas imensas de papel de presente e celofane e encadernava um por um dos volumes. Dobrava nas pontas, e explicava todos os movimentos de durex e doçura. A tesoura iluminava suas mãos como um súbito esmalte cinza.

Pedia para que respirasse o caderno novo, depois algum livro e dizia:
- Não há cheiro melhor. O cheiro é o caráter do livro.

Com a velocidade de um escorregador, logo deslizava do papel para minha nuca para brincar que eu era sua caligrafia predileta.

Desde lá, eu contraio os ombros quando recebo um beijo no pescoço. É impossível controlar o arrepio se ele vem desde a infância.

Mesmo trabalhando dois turnos, cozinhando, cuidando sozinha da casa, a mãe encontrava tempo na madrugada para embrulhar vinte cadernos e distribuí-los nas mochilas com a ordem de um jardim.

Não sei quando dormia. Não sei quando acordava. Não sei quando saía. Não sei quando chegava. Mas estava sempre lá quando a gente precisava. Bem humorada, retirava fantoches da pobreza do pano.

Deixava os blocos atraentes, novos. Como se fosse uma costureira e sua máquina preta, como se fosse uma cozinheira separando os grãos sadios dos doentes no alguidar.

Durante a aula, tentava esconder a superfície do meu material dos olhares curiosos da classe. Colocava os dois braços por cima para ninguém espiar e descobrir que me faltava dinheiro. Simulava castigo. Uma preguiça orgulhosa, dormindo protegido na almofada das letras.

Mas os colegas empurravam meu corpo, cruéis com as novidades do primeiro dia.

- Deixa ver? Deixa ver?

Abria os dedos com timidez contrariada.
- Que lindo. Onde você comprou?

Lembrei do capricho materno arrumando as folhas, juntando os recortes e fazendo os conjuntos tão pessoais que éramos – eu e os irmãos – os únicos da escola a contar com aquela fachada íntima e colorida de diário.

- Onde comprei? Da imaginação de minha mãe.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, Número 183, P. 62, Fevereiro de 2009


8:31 PM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

QUAL O MOMENTO PARA APRESENTAR A NAMORADA AO FILHO?



Leitora está confusa com decisão do namorado em preservar o filho do namoro.

"Gostaria muito de saber: se seria muito confuso para uma criança de três anos conviver com a namorada do pai que se separou da mãe no início do ano passado? A criança irá sofrer? Ela aceitará melhor agora ou com mais idade? Isso será bom pra ela?"

Consultório Poético não deixa a dúvida dormir.

"Somos péssimos atores longe da verdade. Acho que os dois precisam valorizar a naturalidade. A criança pressente e entende o que não está sendo declarado. Ela enxerga dentro do abraço."

Dê sua opinião no BLOGLOG.

3:57 PM :: Comentários:

ABAIXO AS PINÇAS E OS BARBEADORES!



Onde estão os barbudos no futebol?

ROLO COMPRESSOR retorna de férias com os questionamentos mais inusitados, as perguntas mais loucas.

Confira a crônica no blog.

11:07 AM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 08, 2009

CABRA SAFADA

Fabrício Carpinejar



Desconfie dos sabonetes das mulheres. Mais do que dos vibradores, meros objetos de decoração das gavetas.

Eu absorvi o ciúme mórbido com a minha namorada.

Ela não me permitia usar um sabonete de leite de cabra. Branco, bonito, com um longo fio para segurá-lo com destreza.

Podia pegar qualquer outro, menos aquele. Derramar os condicionadores e os xampus sobre a barba; aquele não; era inviolável.

O cordão desenhava uma pulseira ajustável ao pulso, como um terço, uma algema, rédeas da espuma.

Reinava avulso no registro do chuveiro. Não aceitava companhia. Despejou a esponja e a calcinha da vizinhança. Sua arrogância lembrava a de um badalo, prestes a explodir sonoramente a torre de uma igreja.

Não sei o que ela faz com ele. Mas cresceu uma inveja de seu lugar no box. De sua exclusividade.

Delirava que ela me trocava pelo sabonete. Quando não estava em casa, corria para sua fragrância. Banharia os fios negros, desenharia as curvas, releria o Cântico dos Cânticos em sua textura.

Não subestimo meus fantasmas, ainda que sejam inventados.

Ensandecido, tratei de eliminar o rival. Aos poucos, para não gerar suspeitas.

A cada mergulho, friccionava o bichinho em minhas mãos. Esfregava sem parar para gastar seu corpo arenoso. Nunca fui tão higiênico, tão asseado, tão perfumado. Tomava três banhos por dia. Nem em minha adolescência, encarnei tamanha gastança de luz e furor.

Numa semana, emagreci a cabra safada. Ficou fina como uma lixa. Raquítica. Um papel vegetal. Já observava o outro lado de sua superfície. Zombava da fragilidade quebradiça. Botava em meu rosto e gritava para seus ouvidos limpos:

- Viu com quem foi se meter?

Permaneceu apenas a alma de um fio. Uma forca de gato, nó da embarcação gloriosa.

Minha felicidade mal podia aguardar o susto da namorada.

Ao identificar o capricho gasto nas órbitas dos azulejos, frustrou minha expectativa. Não se irritou. Não gritou. Não esperneou. Não me culpou. Calmamente, me pediu para abrir o armário.

Havia vinte iguais debaixo da pia. Um exército de Calígula.

Orientou que saísse e fechasse a porta do banheiro.

Homem é mesmo facilmente substituível.

7:03 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

DO LADO OU DE FRENTE?
Arte de Hugo Van der Goes

Fabrício Carpinejar



Meu irmão comprou um telescópio para registrar o desenho das estrelas, eu vou a restaurante decifrar a posição das palavras.

Restaurante é um observatório do amor.

Divido os casais naqueles que sentam um ao lado do outro e os que ficam um na frente do outro. É um detalhe determinante da relação, como segurar as mãos da namorada como uma esponja ou entrelaçar os dedos.

Os que ladeiam a montaria das cadeiras não infundem paixão. São mais amigos do que amantes. Quase irmãos: mudos, telepáticos. Repartem igual perspectiva da paisagem. Não completam as observações, repetem as versões do lugar e do momento. É triste quando são abduzidos por um programa de tevê.

Distraídos entre si, já se esgotaram, almoçam e jantam fora unicamente para comer.

Optam por testemunhar a movimentação da sala ao mesmo tempo e na mesma hora. Não há a concentração no rosto da companhia. Dependem do que acontece externamente para encontrar assunto.

Podem sussurrar e beijar com mais facilidade, mas são os que menos beijam e se acariciam. A proximidade dificulta. Conversam olhando para longe. Não há paredes de braços para confidências e angustiada aproximação do peito na quina para se ouvir. Não empurram a garrafa, os copos, o mal-estar e os arranjos para não perder a permanente perseguição das pupilas.

Talvez conserve a dois a diagramação familiar completa (como se os filhos estivessem presentes), mas me incomoda a falta de provocação frontal, do desafio dos gestos, dos avanços das pernas debaixo da toalha. Evocam desconhecidos em refeitórios de empresas, reunidos somente pela cadeira vazia e ausência de mesa própria. Retratam o cansaço no ônibus de passageiros retornando do trabalho. Chamam o garçom, aliviados, esticando a cordinha da parada. Descem em silêncio para seus problemas.

Pertenço ao grupo que senta frente a frente. Faço um quarto com guardanapo. Aponto a faca e o garfo dependendo das frases. Existe uma oposição excitante. Fecho os segredos com os ombros. Estamos em público, entretanto reservados, íntimos, pessoais. O restaurante flutua. Preservo a minha mulher para a troca de críticas e de ofensas. Não a salvo da demonstração do afeto. O desejo contraria o conforto.

Todo beijo caminhará uma quadra de linho. Todo beijo é um noivado. Levantado, esparramado, escandaloso, atravessado, sobrevoando as travessas.

Por um instante, breve e memorável instante, a mesa conhece a vastidão da cama.

11:36 AM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

CRÔNICAS A CÉU ABERTO



Alô Vale do Sinos! Farei minha primeira oficina de crônicas na região. Será um curso de imersão em Picada Café, cidade a 80 km de Porto Alegre, no pé da serra gaúcha. Um final de semana de escrita criativa (14 e 15 de fevereiro), mais hospedagem e refeições no Centro de Vivências Integria. A pousada oferece trilhas e banhos de rio.

As vagas são limitadas e preenchidas por ordem de inscrição.

Promoção Agência da Palavra. Contato: info@integria.org ou (54) 84023744

8:21 PM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 01, 2009

FORA DOS TRILHOS
Arte sobre Magritte

Fabrício Carpinejar



Eu e meus irmãos dividíamos presentes. Era a derradeira mobilização para receber um brinquedo de nossos sonhos. Somávamos os três aniversários, que aconteciam no último trimestre do ano. Em caso de resistência, a gente preparava promoções para completar o orçamento e arrebatar o leilão familiar, tipo TRÊS ANIVERSÁRIOS + NATAL + PÁSCOA. Azar se as datas festivas restariam vazias. Valia o sacrifício. Acreditávamos que os presentes durariam a vida inteira e que brincaríamos com os nossos filhos.

Conservamos as caixas. Preservamos as peças. Nunca jogamos ao léu ou largamos os encaixes fora da prateleira. Nossa infância dispensava empregada doméstica. Nenhum de nossos jogos ficou desfalcado, arruinado e danificado. Conseguimos entrar na adolescência sem traumas lúdicos e fraturas no quarto. Firmamos um pacto.

Esquecemos somente de avisar a mãe. O que não esperávamos é o seu desinteresse pelo nosso passado.

A mãe mora sozinha num casarão de quatro quartos, pátio e garagem imensa. Lugar não falta para guardar as quinquilharias. Quinquilharia é como ela enxerga qualquer coisa que não seja dela. Fui procurar meus diários de infância, escrevi desde os doze anos e estava numa caixa do falido banco Habitasul. Assaltado pela nostalgia, revirei os baús e as estantes e nada. Ela colocou fora sem aviso prévio. Sua desculpa é que não lembra, faz muito tempo. Na dúvida, eu não despacho. Na dúvida, é certo que ela põe no lixo.

Deveria entender o recado. Funciona desse modo: ela informa que vai colocar a antiguidade no quartinho, depois diz que vai transferir para a lavanderia, na hora que ela comunica que está na garagem é o fim. Colocou na rua e ofereceu ao primeiro carroceiro que aparece em sua porta.

Foram descartadas todas as pastas de recortes do Internacional de 1975 a 1979, que abrangiam os três títulos nacionais. A coleção de Placar da década de 80 pousou em algum sebo. Sumiram os cadernos culturais do Correio do Povo de 1960 a 1970. Não sobrou ruína de minha meninice. Eu não existi antes dos quinze anos. Não procure prova. Minha mãe é um incinerador doméstico.

O que me arrebenta os nervos é a doação imprevisível do Autorama, uma pista que ocupava o quarto inteiro, do Ferrorama, com trenzinho apitando, estação amarela e desvio de rotas, e do Binogol, estádio aveludado fundo, com as bordas de madeira e uma simetria maravilhosa dos bonecos. Nossas economias de vários anos, súplicas, birras alimentares, porquinhos quebrados, greve de doces e centenas de velas assopradas. Guardados intactos, brilhosos, com carrinhos transparentes, funcionando com a corda e a carga de suas estreias.

Ela mexe os ombros afirmando que não entende onde coloquei. Ainda me deixa procurar em vão durante horas pelos esconderijos invadidos.

Desabafo porque encontrei o Ferrorama neste domingo no Brique da Redenção. Custava R$ 400,00. Minha infância está à venda. Mas não tenho mais os aniversários dos meus irmãos para comprá-la.

11:43 PM :: Comentários: