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    Quarta-feira, Dezembro 30, 2009

    ESTOU AGORA NO BLOGSPOT



    Depois de seis anos no blogger e mais de 1 milhão de acessos, meu blog deixa esse espaço e continua em outro endereço, agora no blogspot. Estava na hora de repor o guarda-roupa das crônicas. A nova página permitirá uma maior interação com o leitor. Atualizem seus marcadores: http://carpinejar.blogspot.com/

    11:46 AM :: Comentários:


    Sábado, Dezembro 26, 2009

    OVOS QUEBRADOS
    Arte de Arthur Dove

    Fabrício Carpinejar



    Chega um momento em que a relação precisa quebrar os ovos. É bom estar preparado.

    Será como o trabalho doméstico: transparente. Lava-se louça, roupa, estende, retira os vincos com ferro, limpa casa, recolhe o lixo, arruma os brinquedos e os filhos nem reparam que tudo está novamente no lugar e no armário, apesar da bagunça feita recentemente. É óbvio que não vão agradecer. É o que chamo de passado secreto. Aconteceu, mas não merece memória. Entretanto, a raiva fica: não fui valorizado e resta um desmemoriado mal-estar.

    Minha namorada resolveu comer omelete. Ela já fez o prato outras vezes em seu apartamento.

    Estava em casa e me antecipei na captura dos ingredientes, louco para agradá-la. Mas a minha menção de executar a tarefa a desagradou. Entenda, é o passado secreto. O ardiloso passado secreto. Com minha efusiva disposição, ela desconfiou de que não gostava de suas omeletes e que somente agora, decorrido um ano, estava com coragem de falar.

    Raciocinei que significava uma informação dispensável, meu modo era dourar os dois lados e o dela era envelopar a massa ao final, mas ela tratava o assunto com tamanha energia que até me assustou.

    - Quer que eu faça?
    - Não gosta do jeito que faço?
    - Gosto, é que eu mostraria minha predileção...
    - Gosta nada, quem já fez omelete para você? Quer do jeito de quem? Confessa?
    - De ninguém.
    - Ora, vai nessa, qual é a receita? Com queijo ralado, requeijão, fatias? Por que nunca me disse que não gostava da minha omelete? Eu me sinto uma idiota...
    - Eu gosto, só busquei uma maneira diferente.
    - Que maneira?
    (Daí eu me danei)

    Levaremos mais tempo discutindo na tentativa de prevenir a discussão. A conversa durou duas horas. Duas horas sobre absolutamente nada, a não ser o medo do que não foi vivido junto. Se aliso seu umbigo, acreditará que repito um convite libidinoso com uma antiga namorada. Quanto mais a gente se entrega, maior é o pânico de estar sozinho na doação, de ser uma miragem afetiva. Tanto que após desfiar um "eu te amo tanto", não ouse nunca mais declarar "eu te amo" - é como se amasse menos.

    O ciúme está dobrado em cada gesto, fazendo contas e pedindo estornos. Não há saída; passe manteiga na conversa, aqueça a frigideira e admire os ovos quebrados na pia.

    Repare como o negócio é tinhoso. Durante as compras, no caixa, costumava perguntar se ela estava naquele momento com troco. Não falava dinheiro, mas troco. Uso troco para tudo. Para quê? Ela já formulou uma tese de que empregava o código com a ex. Igual sina em nossas rotas românticas. Relaxados, sozinhos e prontos para namorar, peço que ela me alcance o champanhe do balde: - Por favor, me passe a "champs"? “Champs”? Feito o entrevero. Usava também esse dialeto com a ex.

    O grave é que ela tem razão. Só não desejava brigar, ainda mais quando não tenho defesa. Ela poderia ser mais justa e me dar tempo para preparar uma mentira.

    8:47 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

    QUANDO O PAI ESQUECE O FILHO DO PRIMEIRO CASAMENTO
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    Um homem que se finge de burro é mais burro do que um burro honesto.

    O que me dói é ver um pai casar de novo e esquecer o filho do primeiro casamento. Esquecer. Nenhum cartão de Natal ou presente debaixo da lareira.

    É que ganhou um herdeiro do segundo casamento, está envolvido na escolha do enxoval, no anúncio do jornal, em fumar charuto com o sogro e com aquela vaidade suprema de ostentar para sua esposa que é experiente e sabe segurar a criança.

    Ele apaga a casa anterior — com o que havia dentro dela — e se apega à casa recente. Entende que sua criança ou adolescente cresceu o suficiente para não depender mais dele. Nenhum filho cresce o suficiente para ser órfão de repente, não importa a idade.

    Aquele filho a quem amava e criava com zelo, a quem aconselhava e trocava as fraldas passa a existir somente como uma pensão, uma linha do seu contracheque. Não pergunta. Não telefona. Não se encontra fora de hora. Está muito ocupado criando um bebê. O que dá para entender é que ele não ama o filho, mas a mulher com quem se encontra no momento. Faz qualquer coisa para agradá-la, inclusive negar a paternidade do primeiro casamento.

    É do tipo ou tudo ou nada, ligado à figura masculina patriarcal, que oferece e tira conforme suas vantagens. Não é bem um pai, mas um latifundiário emocional, desconfiado, sob permanente ameaça de invasão de suas terras.

    Mãe é diferente, sempre se elogia quando menciona seu filho. Mareja os olhos ao mexer na gaveta das camisas, coleciona bilhetes e desenhos, inventa uma porção de neologismos no abraço. Não se guarda para depois, para um melhor momento, está disposta a conversar pressentimentos e costurar recordações.

    Pai costuma se omitir no momento do desabafo. É comedido demais para estar vivo. Troca de personalidade, de residência, de amor, o que precisar, no sentido de prevenir a sobrecarga de problemas. Para namorar, ele some por meses (exatamente o contrário da mãe, que administra o final de semana com o apoio da babá e da avó). Homem ainda não conseguiu conciliar sua vida profissional com a afetiva. Não é capaz de unir nem a vida afetiva pregressa com a vida afetiva atual. Cuida de um afeto por vez.

    Pai não forma sindicato, não cria associação. Continua defendendo que ninguém tem o direito de se meter na vida dele e converte em inimigos os amigos que insinuam sua indisposição filial.

    Ele se separou de uma mulher, não do seu filho, mas culpa o filho porque não consegue completar uma frase com a ex. Parte do princípio de que ajudando o filho está ajudando a ex. Gostaria de matá-la, mas então se mata para o filho.

    Ou entende que seu filho deve procurá-lo, cria paranoias e neuroses para aliviar sua culpa. Age como um ressentido, fala mal do filho do primeiro casamento para a mulher do segundo casamento, alegando ingratidão. E a mulher do segundo casamento concorda com o absurdo porque está preocupada com o nenê e deseja a exclusividade do marido. E não entende que um irmão depende do outro irmão, que uma família não cresce por empréstimos.

    Homem tem que aprender a sofrer em público, sofrer por um filho o que sofre por uma dor de cotovelo, apanhar das cólicas e da coriza, desabar numa mesa de bar, beber interurbanos, fechar a rua e o sobrenome para encurtar distâncias, chorar nas apresentações escolares, fingir abandono a cada despedida, para só assim mostrar que pai, pai mesmo, nunca será dispensável.


    Coluna no site Vida Breve

    1:32 PM :: Comentários:

    DJs



    Os filhos Vicente Carpinejar, 7, e Mariana Carpinejar, 16, trocam músicas, fofocas e clipes pela rede. É o blog Rádio Mil Ponto Zero. Sintonize.

    1:32 PM :: Comentários:


    Terça-feira, Dezembro 22, 2009

    YOUTUBE



    Minha namorada Cínthya Verri escreveu uma crônica muito engraçada sobre Youtube, o teste final para escolher o parceiro. Em Bouche Ville.


    10:09 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

    AUMENTE SUA DELICADEZA ATÉ 28cm
    Arte de Allen Jones

    Fabrício Carpinejar



    O que leva o homem à impotência é o cuidado.

    O que leva a mulher à frigidez é o cuidado.

    O excesso de cuidado. Cuidado demais ataca.

    Nunca vi uma mulher ou um homem gostar sem criticar.

    O embaraço do sexo não decorre da ausência de intimidade, mas da intimidade. E da cobrança que vem com ela. Mais fácil gozar com estranhos.

    Depois de partilhar meses e cadernos de jornal com nosso par, abandonamos o elogio. Passamos a cobrar e expor os defeitos para que sejam corrigidos. É o cigarro, é a alimentação, é a distração, é o pouco caso com o dinheiro, é a indeterminação do trabalho, é a preguiça. A convivência traz a preocupação com o namorado ou a namorada e uma esquisita vontade de interferir. Entre conhecer e mandar, é um passo. Ou um tropeço. As mais duras agressões não provocam hematomas, ocorrem em nome da sinceridade.

    O amor é confundido com pancadaria. Um teste de resistência. Uma prova de esgotamento nervoso. Se o outro não quer, que vá embora, que desista do prêmio maior que é a confiança.

    Há uma visão sádica que não ajuda nem o masoquista. Falta medida. Falta parar e recomeçar o namoro. Falta esquecer e perceber que o próprio passado não é imutável, não existe certo ou errado, que nem tudo por isso é duvidoso.

    A eficácia mata o erotismo. O aproveitamento total do tempo do relacionamento não colabora com a vaidade. Custa um agrado antes de transar? Uma meia-luz de palavras?

    Não estou pedindo para mentir, muito menos fingir, mas falar um pouco bem para acordar os ouvidos e despertar o interesse.

    No início, os joelhos são venerados, os ombros recebem moldura de madeira, os cabelos são alisados com a decência de um espelho. As expressões afetuosas vão e voltam, repetidas com diferentes timbres. Todo homem no começo é, ao mesmo tempo, um tenor, um barítono e um baixo. Toda mulher no começo é, ao mesmo tempo, uma soprano, uma mezzo e uma contralto. Dependendo da região que toca, a voz muda.

    Com a relação firmada, a excitação torna-se automática. O corpo tem que pegar no tranco.

    A devassidão é trocada pela devassa terapêutica. Desculpa e por favor saem de moda. Como existe o trabalho, a casa, o dia seguinte e terminou a paixão (e somente os apaixonados são sobrenaturais e não sentem cansaço), o sexo pode ser mais prático, mais direto, pode até não ser. Na cama, estaremos falando dos problemas, das contas, do que deve ser mudado na personalidade. Não encontraremos paciência diante do relógio. Não vamos procurar cheirar a pele para atrair o beijo.

    Eu compreendo perfeitamente quando um homem broxa se a cada instante é lembrado de sua barriga. Eu compreendo perfeitamente quando uma mulher decide dormir quando sua lingerie nova não foi reparada.

    Nunca acusamos quem a gente não conhece.

    Julgamos infelizmente quem vive nos absolvendo.

    10:26 AM :: Comentários:


    Domingo, Dezembro 20, 2009

    O QUE O HOMEM DEVERIA ENXERGAR
    Arte de Matisse

    Fabrício Carpinejar



    Uma faxineira me contou.

    Ela demorou muito tempo para entender a insatisfação de sua patroa.
    Lavava, arrumava, ordenava com esmero e recebia alguma reclamação sobre a falta de capricho no fim do expediente.

    Da onde tirava essa conclusão?

    Ela já confiava na hipótese de que não recebia elogio de propósito, para não se acomodar, que era um método de superação. Ou uma maldade produtiva.

    Ameaçou largar o endereço, desistir de convencê-la da injustiça, reclamou ao marido a tortura de viver esmolando elogio.

    Mas ela acabou capturando o motivo da cisma constante e semanal. Libertou-se da dúvida.

    A patroa não vistoriava a casa, não observava o conjunto, não conferia o chão ou as roupas dobradas. Talvez nem fiscalizasse o pó das mesas. Reparava em um único detalhe: os interruptores de luz. Se apareciam brancos e brilhantes, tomava como princípio que o trabalho foi bem feito. Quem lavava o interruptor pensaria em todo o resto. Logo ao acender a luz, a dona da residência aprovava ou criticava o serviço. Nem lançava as pupilas pelos aposentos.

    Essa percepção da patroa, que elege o ínfimo como senha da limpeza, e o cuidado da faxineira, que compreende a mensagem invisível, revelam as sutilezas femininas.

    O homem deveria ficar mais distraído. Só a distração nos conduz ao indispensável.

    Por exemplo, eu enlouqueço com mulher que mexe os brincos no meio de uma conversa. Há um desinteresse charmoso nesta atitude. Quase um desprezo desafiador. Redobro as gentilezas. Ofereço o que ela não ousou pedir. Sinto que vou perdê-la no próximo instante, que algo que lembrou supera a minha voz.

    Para me torturar, ela vira o pescoço sutilmente ao lado. Tal apresentadora atendendo a um ponto dos produtores. Não posso acusá-la de indiferença - mantém os olhos no meu rosto.

    Comemoro sua sofisticação, a complexidade dissimulada. Concluo que esteja conversando com seus demônios. E que o demônio no ombro direito ameaça, bem desaforado:
    - É sempre dia para o corpo. Vai, abraça esse canalha!

    Já a percebo como uma feiticeira, uma bruxa, uma doida, que está definindo sua vida tocando as curvas do lóbulo. É o detalhe que decide. O detalhe conspira, inunda, confunde. Ela diz sim a partir dos ouvidos mais do que da boca. O ouvido tem que gostar de mim.

    Por isso minha escola são os interruptores de luz: uma mulher fica realmente nua quando tira os brincos.

    Depoimento especial para Versos de Falópio
    Da série "Homem de domingo"
    Publicado em 20/12/2009


    1:34 PM :: Comentários:


    Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

    MINHA CATEQUISTA
    Arte de Gerhard Richter

    Fabrício Carpinejar



    Intelectual traz o ateísmo como pré-requisito. Confiar em Deus é sinônimo de ingenuidade, de burrice, de falta de conhecimento histórico.

    Parece que estamos sendo enganados, no fundo do poço e nos agarramos no desespero da reza. Entre os amigos incrédulos, é previsível que pintará Darwin na discussão para mostrar que a Bíblia não aconteceu. Concordo que a Bíblia não aconteceu, é uma parábola, ela está acontecendo sempre. Agora, por exemplo.

    Eu acredito em Deus, posso perder os leitores antes do sermão. ACREDITO. Porque tive uma catequista, Ester, que acreditou em mim.

    Só acredita em Deus quem um dia foi acreditado.

    Ester não me obrigou a colocar agulha no coração de Jesus, a purgar confissões de joelhos, não dobrou a culpa pelos meus pecados, não retorquiu minhas distrações, não censurou minha liberdade de ação, não me pediu para não morder a hóstia, nem me coibiu a não pensar bobagens. Ela me aceitou inteiramente, como sou e não sou. Ela me convenceu com uma única virtude (e tinha várias): o senso de humor.

    Nunca conheci alguém com tamanha gentileza. Ela falava baixinho e sorria para explicar passagens dos evangelhos. Eu me aproximava para ouvi-la melhor. Ouvir mais o riso do que a voz. Seus olhos se apequenavam, chineses, cordiais, antecipando a gola branca da primeira comunhão.

    Não era inquisidora. Não abria inquéritos dos defeitos. Havia uma leveza que não existe no moralista.

    Eis o grande problema do moralista: ele não ri. Repare. É azedo, carrancudo, quer nos passar a limpo, não se duvida em nenhum momento, age como um exterminador dos erros, um desfragmentador de disco. Quem não ri não inspira confiança, sugere uma vida mesquinha e ingrata, com as escolhas decididas pelo medo.

    E Ester é feliz. Feliz com os filhos e netos. Feliz com as suas amizades. Feliz à toa como um grão de mostarda tingindo o bico de um pássaro. E não disputava para ser mais certa do que uma criança de sete anos. Não me inferiorizava com sua sabedoria e suas metáforas, ela me incluía em sua fé.

    Preservo a inocência auditiva daquela época, não duvido do invisível da infância.

    No momento em que uma criança diz enxergar fantasmas, duendes, gnomos e amigos imaginários, os pais têm o hábito de duvidar da veracidade, caçar ajuda médica, recorrer à assistência escolar, não dormir jurando que é um problema de personalidade. Além de alegar que essas coisas não existem, questionam o valor da própria imaginação.

    O ceticismo adulto desestimula que o pequeno supere as aparências, que enriqueça o cotidiano com mistérios e poesia. Bloqueia a fantasia logo no esplendor de sua espontaneidade, como a provar que somente importa o que é real e o que pode ser comprado.

    Evidente que o filho não vai acreditar em Deus, o grave é que não vai acreditar em si.


    Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
    Revista Crescer, São Paulo, P. 60, Número 193, Dezembro de 2009


    10:41 AM :: Comentários:


    Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

    “APRENDI A VELEJAR USANDO O SILÊNCIO”
    Foto de Ricardo Füchs

    Schneider Carpeggiani
    carpeggiani@gmail.com



    Fabrício Carpinejar nunca será um poeta “soneto”. Ou seja: um poeta tradicional, que faz o esperado. Talvez por isso ele consiga ser mais popular entre o público que entre a crítica (feito raro, tratando-se de poesia). Após transformar o consultório sentimental do seu blog num livro, ele compilou as experiências poéticas do seu Twitter num livro que tem como nome o endereço do seu microblog, www.twitter.com/fabriciocarpinejar. Nessa conversa, ele fala de provocações e define sua obra em 140 caracteres.

    JORNAL DO COMMERCIO - Você é um poeta, e a poesia é uma construção cerebral, metódica, o oposto do Twitter, que é feito para apreender o instante do internauta. Como você encontra o equilíbrio desses dois mundos?
    FABRÍCIO CARPINEJAR – Dizem que João Cabral é cerebral, acredito que ele é emocional. A investigação não elimina o relâmpago. O pensamento não elimina o desejo. O estudo não elimina a intuição. É um erro supor que aquilo que dedicamos mais tempo deixa de ser espontâneo. Assim como a poesia, o Twitter corta. Igualmente intenso, ferino. Procura também observações inusitadas do cotidiano, contraria expectativas, espalha iluminações ou sombras num espaço breve, empareda o leitor. Talvez não seja uma navalha, talvez não seja um bisturi, armas cultas e sábias de incisão. O Twitter coloca o poeta em briga de rua, o mais adequado é vê-lo como um canivete.

    JC - Os tais 140 caracteres do Twitter, para você, é uma limitação ou a provocação de uma espécie de formato poético?
    CARPINEJAR – Uma provocação saborosa. É selecionar, sugerir. Como poeta, aprendi a velejar usando o silêncio a meu favor. É o silêncio que dá velocidade ao verso. Quanto menor o aforismo, mais denso. É um laboratório da síntese, do bom humor. Só sentiremos a alegria da vírgula quando as frases são curtas. Será uma vírgula desejada, aguerrida.

    JC - Você parece que gosta de usar a internet como um meio de provocação: o consultório sentimental do seu blog virou um livro e agora o mesmo ocorre com o Twitter. Você é um autor em busca do formato ideal?
    CARPINEJAR – Eu gosto de tudo que é provocação. Um namoro começa com o casal brigando (pena que termina com o casal brigando). Não estou procurando um formato ideal, apenas não sou busto para me fixar em gesso. A mais surpreendente literatura vem quando não esperamos literatura. Brinco de esconde-esconde poético em diferentes suportes. Minha paixão é dar susto. Nasci feio, já tenho pós-graduação em assombros. Onde ninguém me espera, lá estarei com meu lirismo.

    JC - Essas tentativas suas com a internet seriam um sinal de que você estaria...
    CARPINEJAR – Farejando o tempo. Eu concordo com Elias Canetti: o poeta é o cão do seu tempo. Meter o focinho úmido nas mentiras, não deixar nada de fora, ser insaciável em sua curiosidade, revirar o lixo da linguagem para salvar significâncias. Desde pequeno, lustro moedas antigas. Sei que o melhor brilho parte de coisas abandonadas.

    JC - Há algum plano para você voltar ao formato literário mais tradicional e quase épico de livros como Cinco Marias?
    CARPINEJAR – Não sei se é épico, Cinco Marias é um livro irrepetível, centrado no jogo, com a troca de vozes entre os personagens e um final jornalístico que duplica a leitura. Onde cheguei mais perto do teatro. Preparo um livro de poemas, lentamente, que tem como ponto de partida a alegria, a leveza e a graça. Será o primeiro livro da língua portuguesa traduzido para a língua portuguesa. Eu vou me traduzir. Um poema na página e a tradução embaixo, numa nota de rodapé. Divertido, né? Para ninguém mais falar que a poesia é hermética.

    JC - Última pergunta: como você descreveria o atual momento da sua literatura em 140 caracteres?
    CARPINEJAR – Arruaça é uma alegria desesperada.

    Publicado no Jornal do Commercio
    Caderno C, Recife (PE), 17/12/09


    11:37 AM :: Comentários:


    Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

    MEU CARRO ESTÁ OUVINDO
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    Há uma única divisão de classe no país: os que têm ar-condicionado e os que se abanam de qualquer jeito. As outras injustiças são decorrentes dessa partilha.

    O compressor de meu carro quebrou. Depois de dois anos de ar refrigerado, obriguei-me a dirigir com as janelas abertas do veículo. Aconteceu na pior hora, em pleno dezembro, no verão escaldante.

    Foi um susto de mundo. Na brisa artificial, só ouvia música, meus pensamentos, meus segredos, em paz como uma boia nas águas de Cancun. Apresentava a segurança de uma cabine telefônica. Gesticulava quando alguém cometia uma barbeiragem e, em seguida, retomava o fôlego como se nada houvesse acontecido. O ar-condicionado era o vidro fumê dos ouvidos. Trazia um esquecimento instantâneo das agressões ao volante.

    Com os vidros arriados, a percepção mudou radicalmente. Escutava o zumbido da rua, os gritos dos vendedores, o atropelo da saída das escolas, a avalanche das compras natalinas. Tal surdo que recupera a audição de repente e não entende o som. O som é muito violento para entender. Entrei numa rave, numa balada, não assimilando o ritmo para dançar.

    Parava um instante na faixa de segurança e representantes de caridade pulavam na minha porta, para oferecer canetas, adesivos, balas, rapaduras, camisinhas. Uma feira móvel fechava o meio-fio.

    Espantei-me com a velocidade das pernas dos meninos, com a tração das cadeiras de roda. Faziam fila para me oferecer e pedir dinheiro. Mais organizados do que pit stop de Fórmula 1. Fiquei vulnerável para as garotas das construtoras. Amontoei folhetos de prédios paradisíacos na poltrona ao lado, que apenas tinham a função de diminuir o tamanho da minha casa.

    E os motores do carro voltaram a ter barulho, e os canos de escapamento tossiam de pneumonia. Um chevette velho feria monstruosamente a sensibilidade. Enchia-me de piedade de seu motorista. Quase ofereci reboque.

    Apesar de repetir os caminhos de sempre, entrei em outra cidade, as ruas pareciam mais apertadas, o engarrafamento mais longo, os atrasos inexplicáveis. Um ansioso como eu atingia o avesso do nirvana: a histeria.

    Um caminhão fechou a frente num contorno, recuei e buzinei cheio de autoridade. Antes seguiria reto, engolindo o desaforo. Mas ouvi o motorista xingando com volúpia, ofendendo minha mãe, meu pai e minhas unhas pintadas. Barbudo, enxergava seu braço tatuado de Betty Boop me mandando para um lugar bem animado. Aquilo ferveu as sobrancelhas. Já estava discutindo junto, reduzindo a velocidade, numa corrida de bigas, um racha, trancando os carros atrás. Percebi no momento que não sabia nem ofender, apenas reclamava educadamente. Ele falava: FDP, C., M.. O máximo que consegui pronunciar foi: Seu troglodita! O que me soou muito feminino para o momento e adequado para o esmalte pistache que usava. Lamentei minha performance no conflito, estava realmente destreinado.

    Mas nunca tomei uma atitude destemperada, nunca cedi à explosão: eram os vidros abertos. Antes não ciscava o que me respondiam, agora entrei para o cinema falado. A palavra machuca.


    Coluna no site Vida Breve

    2:04 PM :: Comentários:


    Terça-feira, Dezembro 15, 2009

    EFEITO JACARÉ
    Arte de Peter Blake

    Fabrício Carpinejar



    Toda relação tem um efeito Jacaré. Ele engole pessoas ainda vivas. Tritura amores. Cuidado.

    Fui procurar uma meia na lavanderia de minha namorada. Achei um saco de brinquedos. Num canto. Mexi com o tato: hélices, bonecas, corda de pular, quebra-cabeça.

    - O que é isso, Cínthya?
    - O quê?
    - Esse saco de brinquedos aqui atrás?
    - Peças do meu consultório antigo, quando atendia crianças.

    Observei o estado de abandono das peças, exalando a condição de trastes, empoeirados e sem uso. Retirei todos para espiar se localizava algum fetiche de minha infância. Virei a lona no chão e já não me importava que estava descalço. Do pântano, saltou um jacaré. Bonito, de borracha, do tamanho de uma tábua de passar.

    Pulei de faceirice como quem reencontra um par de luvas. Combina com a minha estante, pensei. Vou colocar na ala infantil, chamará atenção.

    Naquele momento, eu me fardei de pet shop. Levei o bichinho para lavar. Retirei as manchas, a sujeira, esfreguei suas escamas, ainda dei ao luxo de aquecê-lo com o secador.

    O jacaré rejuvenesceu, já era um filhote de jacaré. Lustrado. Cintilante.

    Na sala, comuniquei minha decisão para Cínthya:

    - Peguei o Jacaré para mim.
    - Que jacaré?
    - Este! (retirei das costas como um buquê). Arrumei e aprontei para sair comigo. Vou levar para meu escritório.
    - Nãooooooooooooooooo

    A negativa me magoou. Não absorvi o tranco. Imaginei que estivesse troçando, fazendo charme. Mas ela lançou tentáculos na minha direção e puxou o jacaré para perto dos seus seios. Com a violência de uma mãe recente.

    Tentei argumentar:
    - Largou o bicho, imundo. Não duvido que permaneceu parado naquele lugar há três anos. E agora banca a interessada?
    - Não importa, é meu!

    É muito egoísmo, deduzi. E comecei a enumerar as minhas tentativas frustradas de levar algo de seu apartamento. Reclamei de sua possessividade, da ausência absoluta de gentileza. Demonizei a namorada, faltou somente colocar a bata negra da Inquisição e armar o fogo.

    Bati a porta e não me despedi. Desci lento as escadas, aguardando que ela se arrependesse. Sempre parto devagar, esperando um pedido de desculpa sôfrego pelo corredor, dando chance para que ela me alcance pelo grito.

    Não correu atrás de mim, muito menos caminhou. Não era isso que queria mesmo. A verdade é que não desejamos que a namorada corra para nos buscar, desejamos que ela rasteje.

    Perdi o jacaré. Aliás, não perdi o jacaré, não era meu, não ganhei o jacaré simplesmente.

    Por pouco, não fui engolido pela avareza. O orgulho é a mais grave avareza.

    Descobri que o egoísta era eu. Eu é que entrei em seu espaço, mexi em suas lembranças, retirei um objeto qualquer, sem perguntar que valor tinha para ela, quem havia oferecido, sua história. Vá lá que seja lembrança de um amigo que morreu ou um presente de uma amiga que não vê mais.

    É a mania de desfalcar quem amamos pelo ideal de despojamento. Há uma concepção equivocada no relacionamento de que não deve persistir limites na entrega. Com limites, acusamos que não é mais amor.

    Aproveitando a culpa, os amantes são os piores trambiqueiros, esquecem o valor dos detalhes, tiram vantagem em cada gesto.

    É o mesmo que entrar no quarto do filho e colocar, de modo arbitrário, roupas fora. Entregaremos justo sua camisa predileta ou a mais confortável para a Campanha do Agasalho. É o mesmo que promover uma limpeza nas gavetas da criança e eliminar tampinhas de garrafa, confiando que aquilo é um lixo imperdoável, sem adivinhar que serviam para sinalizar a pista de pouso dos aviões de guerra.

    Cada peça da casa é contaminada pela imaginação do seu dono, revestida da memória afetiva de seu uso. Não seria conservada se não fosse importante.

    Não desfrutei de nenhuma educação, poderia ao menos questionar qual o nome do jacaré. Recolhi o animal com a pretensão de que cuidaria melhor dele. Deixei de cuidar de minha namorada.

    10:17 AM :: Comentários:


    Domingo, Dezembro 13, 2009

    DEPOIS DE TANTO TEMPO
    Arte de Modigliani

    Fabrício Carpinejar



    O maior segredo do amor não é por que amamos, mas por que deixamos de amar.

    Nem procure recapitular o que bebeu na noite anterior. Não tomou nada. É a ressaca da sobriedade. Um imperioso repuxo da boca.

    A descoberta é sutil como perder um prendedor de cabelo. Quase insignificante como um enjoo, um cansaço. A consciência surgiu por acaso, sua origem não é bem certa, de repente na hora de escovar os dentes ou ao regar as plantas ou ao atender o interfone. Não tem lógica. Saímos do centro de gravidade que nos tornava absolutamente dependente dos gestos e das atitudes do outro. Estamos livres para pensar sozinhos e, ao mesmo tempo, presos para sempre na incompreensão.

    O desamor é tão fulminante quanto a atração, mas com consequências embaraçosas. Como abandonar a militância, a ideologia, e não ser visto como um traidor? Como narrar o que não tem enredo e reunir sentido em frases soltas e ensimesmadas?

    Qualquer um vai se envergonhar de contar, trata-se de um sopro, não mais de uma voz. Não é algo para perguntar, está resolvido, fertilizado de impressões.

    Por que é duro sair de casa sem um motivo. Duro encarar quem amamos tanto tempo sem oferecer nenhuma explicação adequada e convincente para o fim. Duro conversar sem mesmo entender como ocorreu a passagem de lado, de uma fidelidade extrema e desesperada à indiferença. Duro executar a tarefa, sabendo que alguém aguarda ansiosamente uma palavra para desaguar os traços, uma palavra onde possa colocar a culpa e amaldiçoar nosso nome. Esse alguém precisa da palavra que não temos, como um pai ou uma mãe do corpo desaparecido do filho.

    Vive-se a tragédia de não ter uma tragédia para desencadear a briga. Não haverá uma causa específica para a distância. Fugiremos do contato visual, por não corresponder mais às expectativas.

    Receberemos a fama de mentiroso, de fraco, de que estamos escondendo a verdade. Muitos forçam uma causa, para descontar o preço da loucura. Muitos revisam os últimos movimentos para justificar o término. Muitos mentem para não passar trabalho. Muitos tentam diminuir a injustiça inventando fatos.

    O que aumenta a penumbra é que incrivelmente nunca mais encontraremos nosso par, apesar de viver na mesma cidade, frequentar o mesmo bairro, dividir gostos semelhantes. Nenhum esbarrão no mercado ou no banco. Os amigos em comum apagam as pistas. Não dá para compreender se mudamos os hábitos ou os hábitos não nos pertenciam mesmo e queríamos agradar pensando que eram nossos.

    Minha namorada reviu seu ex num bar. Ele estava acuado com o imprevisto, cumprimentou nervoso ao invés de ajudar o rosto a sorrir. Ela foi ágil, venceu as cadeiras de ferro, as mesas truncadas, esforçou seu quadril para criar interesse e perguntou o que ele andava fazendo. Eu assisti ao enlace esperando o momento de ser apresentado.

    Sondei o que passou pela cabeça de Cínthya: aquele rapaz simpático, de cabelos compridos e óculos ingênuos, foi um dia seu melhor, que ela também foi um dia o melhor dele. Ela tinha que mostrar ternura e não me ferir de ciúme. Ele tinha que apresentar confiança e não se abalar comigo.

    A emoção ficou represada ou talvez já houvesse secado. A questão é que não se falavam durante cinco anos. Idealizaram um reencontro que não aconteceu. Não existe justiça depois da separação.

    12:08 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Dezembro 10, 2009

    ARQUIVO SECRETO
    Arte de Jean Cocteau



    Fim do Campeonato Brasileiro, melhores do ano, mas alguma coisa continua errada no futebol: a homossexualidade debaixo do tapete do gramado.

    Rolo Compressor não tem medo de ofensa da torcida:

    "Não há sequer um jogador de futebol que se assumiu gay no Brasil.

    Não houve um único homem de fibra que disse em qualquer microfone de qualquer rádio em qualquer partida: Queria mandar um abraço ao meu marido."


    Leia a crônica e deixe seu palpite.

    10:39 AM :: Comentários:


    Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

    A HIERARQUIA DA CARNE
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    Quando entramos numa churrascaria, esquecemos o bom senso. Ficamos meio primitivos, animais rosnando, sem tempo de repor o guardanapo na boca. A vontade é pegar a carne com as próprias mãos, cortar com os dentes e sentir o sangue escorrer pelo queixo.

    É o fim da etiqueta. Não há declaração de casamento que possa ser feita num espeto-corrido. O noivo abrirá a caixinha aveludada do anel com as mãos gordurosas? Como começará o assunto?


    — Amor, queria dizer algo importante…

    — O quê?, a possível noiva tenta se desvencilhar do bife e acelerar as mordidas.

    — Tudo bem, eu espero terminar o pedaço…

    Só que chega outro e outro e outro pedaço e não existe pausa de cinco minutos para uma confissão arrebatada. E o possível noivo suará frio, assustado com o número de pedidos de sua musa e logo vai concluir que não terá dinheiro suficiente para manter o relacionamento.

    Toda mesa é uma jaula com fome. O espeto corrido tem suas artimanhas, toalha de mesa de papel, que será retirada com o novo cliente, palitos Gina para usar tanto na dentição como de colher no cafezinho, e os potes de farinha branca e mista, que servem para a criança brincar de escorregador no prato.

    O que predomina no salão é uma melancolia de ossos. Um sentimento de inferioridade na saída, uma desilusão de que nunca seremos capazes de dar conta do recado. Há um desespero auditivo, com ofertas das mais diversas carnes disparadas de todos os lados, um desespero olfativo, complicado diferenciar os cheiros, e um desespero gustativo, o medo de perder aquela joia da brasa, o que impele o freguês a aceitar indiscriminadamente o que aparece pela frente.

    Churrascaria é uma festa de família somente com desconhecidos. É muita intimidade para ser partilhada com estranhos. Impossível ser educado, não arrotar, não cometer alguma gafe. É coisa para vikings.

    Mas há uma hierarquia secreta entre os garçons, que poucos reparam, tão concentrados em compensar o valor do rodízio.

    Já enxergou jovem segurando o espeto de picanha? Claro que não. É arte para veterano. O garçom da picanha será o mais antigo da casa, o general da faca. É o funcionário graduado, com medalhas de combate nos esbarrões. Localiza os clientes pela colônia e tem a patente abaixo unicamente do dono do restaurante.

    Em seguida, descobriremos o protagonista dos filés, um agente secreto entre a cozinha e o bar, com informações quentes dos andares da churrasqueira e da disponibilidade real do frigorífico.

    Depois, os atendentes da maminha, do vazio, da alcatra e do lombinho, um terceiro escalão ainda digno e solicitado, que costuma fazer o maior número de piadas para galgar posições e a simpatia dos comensais.

    No quarto bloco, os amigos do matambre, da costela, do cupim e da costelinha de porco, um grupo modesto, com no máximo três anos de ofício. Ambiciosos, porém sofridos com o excesso de rondas. Recebem um salário um pouco mais alto do que o guardador de carros. Escutam excessivas recusas, dependem de plantão psicológico para suportar a desvalia e a negatividade do trabalho. Obrigados a explicar, a cada instante, que a “picanha já vem”. São conhecidos como a esperança do boi. Discutem o relacionamento de madrugada com a mulher, sempre inflexível com o posto do marido, teimando que ele é frouxo e deveria tentar se impor e aumentar as estrelas do avental.

    Na rabeira, encontraremos os gurizotes. Sim, os estreantes, com espinhas na cara e barbicha de bode, admitidos recentemente no lugar, que necessitam experimentar privações e vexames para se tornarem homens duros e bravos, preparados ao selvagem atendimento do público. Eles pastam mais do que passam. Responsáveis por carregar bandejas de coração de galinha, de salsichão e de abacaxi. Não desfrutam o direito de manejar espeto e lâminas de guerra. Estarão abastecidos de patéticas colheres e pegadores.

    Formam uma brigada inofensiva, de garotos de recados. Experimentam a suprema humilhação numa churrascaria: são os únicos garçons desarmados.


    Coluna no site Vida Breve

    9:04 AM :: Comentários:

    NO PALCO

    Talvez seja a última palestra do ano. Sou o entrevistado do projeto AUTORES E ATORES, do Shopping Total, em Porto Alegre. A divertida Laurita Leão (Lauro Ramalho) conduz o bate-papo. Do elenco da peça Filhote de Cruz Credo, participam Gutto Szuster e Laura Medina. Na Livraria Nobel (Cristóvão Colombo, 545), 19h, Entrada Franca.

    9:02 AM :: Comentários: