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Segunda-feira, Outubro 06, 2008

ALMA DA CASA
Para Oliver, Luiz, Simone e Helena
Arte de Franz Marc e Lauren Hamilton

Fabrício Carpinejar



Nunca fui fã de gatos. Era menino de quintal, e os fundos da casa pediam cachorros, para latir e proteger a família. Nenhum menino na escola dizia, é curiosa a evocação, que tinha um gato. Todos declaravam nas redações escolares que tinham um cachorro. Não sei onde os gatos viviam. Eles se multiplicavam nas muradas e antenas. Disparavam atravessando as avenidas, com uma velocidade espantosa, pulavam grades e cercas.

Enterrei seis gatos, apedrejados e enforcados pela maldade dos guris grandes do bairro. Jogados no terreno baldio ao lado da minha residência. Busquei os mortos com carrinho de construção e usei o avental da mãe como máscara de médico. Os guris grandes eram apelidados de girontes, mistura de girafa (pela altura) e mastodonte (pela truculência). Enterrei perto da horta, os cachorros respeitaram o luto e não uivaram. Um gato morto é um anjo sem asas. Mas achava que o gato merecia ser deitado no telhado, já que ele é mais céu do que terra.



Espero ter sido respeitoso com os felinos. Armei uma cruz com a data e o nome do dia. Repousei pedras como braços da chuva.

E compreendi o motivo secreto do gato não aparecer em minha infância. Gato é bichano de adulto, ou de criança superdotada. Há muita solidão nele para se agüentar quando pequeno. Descobri que os pais dos meus amigos cuidavam de gatos, que andavam sorrateiros pelos escritórios, desligando o abajur e vigiando as tomadas pelos cantos.

O gato não é como o cachorro, que lambe, pula, traquina logo no primeiro abraço. O gato estuda geometria. Não depende de nosso gesto para existir. Ele se aproxima devagar, como uma almofada e não mendiga ternuras. Espera o instante exato da amizade para merecer o amor e se vira para facilitar as cócegas. Não mexe o rabo como um ventilador desesperado no verão. O gato é silencioso como um ar-condicionado. Quente, frio. Tem controle remoto. Eu nunca sei de onde vem, pois já estava na sala antes de enxergá-lo. O gato é o antigo morador de qualquer casa. Conhece a planta da água oculta e as ramificações da umidade.

Curioso, mas não indiscreto como o cão. Atento, mas não fofoqueiro. O gato é quando calamos e não estamos tristes.

Recebi telefonema de Luiz Ruffato. Não reconheci sua voz. Vazia, sem rompantes, um tom impessoal de catálogo telefônico.

- O que houve, mano?

Seu gato Oliver estava se despedindo. O rim parou. Havia se recuperado milagrosamente nos últimos dois meses e voltou a sentir a falta de fome e se aninhar na morbidez das cortinas.

Quando conversava com Ruffato e Simone no apartamento deles em Perdizes, Oliver ficava alteado na janela e ouvia a música de fundo de nossos timbres. Um conselheiro sábio, confidente dos muros, que nos indicava a verdade pelos bigodes. Concedeu a pata algumas vezes, com discrição, um cumprimento honesto. Não mais do que isso, para não confiar em demasia nos costumes. Seu pêlo era a barba linda que teria se não convivesse com a lâmina.

A luz seguia Oliver pela casa, como uma palavra favorita. Abria clareiras pelos aposentos. Iluminava a mesa com sua toalha de olhos.

Se o homem é a alma da rua, se o cachorro é a alma do pátio, o gato é a alma da casa. Oliver reembolsou minha solidão. Eu o amo como se eu nunca tivesse existido. Sei agora desaparecer para não morrer.

7:41 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 05, 2008

SUPERMERCADO A CÉU ABERTO
Em sua estréia, Alice Sant'Anna ressoa intensa e vibrante.

Fabrício Carpinejar
Poeta e cronista, autor de "Canalha!" (Bertrand Brasil, 2008)



O reconhecimento editorial e crítico de poetas cinqüentões como Chacal ("Belvedere", Cosac e Naify), Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes, e Nicolas Behr ("Laranja Seleta", Língua Geral) finalista do Portugal Telecom, ambos com publicação de suas obras reunidas por grandes editoras, reacendeu o gosto dos autores contemporâneos pela geração mimeógrafo. Novos poetas surgem com o tom mundano, performático e panteísta, marcas da turma que vendia seus livros xerocados de mão em mão na praia de Copacabana ou nas superquadras de Brasília. Alice Sant'Anna é um deles.

Com 20 anos, realiza sua estréia com "Dobradura” (7 Letras, 62 páginas). Despojada, incisiva, numa lírica auricular, que pretende destacar rompantes a partir da exposição ostensiva de registros corriqueiros. A autora tem um domínio fora do comum para capturar o poético da banalidade. Controla a luz e o foco manualmente. Quando se espera um fato relevante que quebre a normalidade, mantém a linha e assume um tom nostálgico de defesa da rotina. Dispara a lente na ordem das coisas miúdas e regradas, montando algo como uma fotonovela de desacontecimentos (freqüentar livraria, cinema, hotel) e grafando a tendência da vida da grande cidade de estabelecer horários mais do que planos. Canções dedicadas aos suspiros da terça, da quarta e sexta-feira, à sucessão de afinidades e condicionamentos. Registra o limbo da memória, o purgatório da observação, o inalterável estar-sendo.

Faz um supermercado das ruas cariocas, selecionando atos de ternura entre os passantes (devota uma ligação com a procura do instante mágico dos beats). Puxa o que cada um tem de mais pessoal e anota. Disciplina a displicência, executa uma escrita livre do olhar.

"a única
coisa certa é que a quarta-feira
tem carne moída com purê de batatas
e aula de piano às seis".


Nem submissa, muito menos transgressora, não luta contra a cronologia das tarefas. Mescla um realismo educado com um impressionismo contido. Desenvolve a esperança das expectativas mais bobas. Encontra o prazer dentro da obrigação. Traz uma visada nada ambiciosa, simples, calcada em explosões intelectuais suaves que não fazem barulho ou não surtem testemunhas. Sua delicadeza é do adágio, tomada de alegre melancolia. Não altera a altura do timbre e parece conter uma timidez sedutora, uma ingenuidade que pede informações, falando baixinho algo importante. Encabulada pelas descobertas, ela não dá preço ao que diz para o leitor estabelecer o valor.

Há uma pretensão de persuadir pelo acúmulo, o que gera às vezes a monotonia do arrolamento, um excesso que cansa ao começar os versos sempre da mesma forma e de apontar mais do que se precisa para se consumar a sublimação. Torna-se previsivelmente descritiva. Um exemplo:

"(...)
um homem desce de muletas
pela porta da frente, um jovem
anota exclamações para si mesmo
em um caderno (terminar
o trabalho hoje sem falta!!!!)
uma turista enrolada
em uma canga azul não passou protetor
solar (...)"


Alguns poemas não funcionam como "Bolinhos de vento", repetindo a noção gasta e infantil da solidão como uma ilha.

"pegue um lápis e marque um ponto
no centro de uma folha
a solidão é tudo o que está em volta."


Outros poderiam ser mais enfáticos e limpos:

"aguardo
sem armaduras
o susto
que me explodirá
como estudado."


Que seria brilhante de modo direto:

"aguardo
sem armaduras
o susto estudado."


Talvez falte apostar mais no enxugamento, para encarnar um “verso do caroço”, como o que acontece com a obra da portuguesa Adília Lopes, que dança nas contradições, na ausência de transcendência e no cotejamento irônico de conclusões objetivas ("Deus não me chateou. Minha mãe me chateou").

Na maioria dos momentos, ressoa intensa e vibrante. Desconcertante o final da cena sobre falta de luz. Ao invés de se sentir aliviada com o retorno da energia, ela se acovarda por não poder prevê-lo.

"quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente".


Ao lado de Bruna Beber, Alice Sant'Anna não é uma promessa, é a abertura generosa de um estilo, remodelando uma arte cinética e enternecida, que projeta interiores desconhecidos nas fachadas mais redundantes.

Publicado no jornal O Globo, caderno Prosa e Verso, p. 3, 4/10/08, Rio de Janeiro (RJ)

11:29 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 03, 2008

MENTIRA FEMININA
Arte de August Macke

Fabrício Carpinejar



O homem agüenta uma bofetada, de girar o rosto para a lateral como gandula de tênis. Uma crise de ciúme no meio da rua. Escapar do tranco de uma piada sobre sua coleção de latinhas de cerveja. Tolera ser furado no trânsito. Perder um jogo nos últimos minutos. Sufoca a raiva ao ser preterido no trabalho e ainda tem sangue frio para cumprimentar o colega que roubou sua promoção.

Ele sairá de qualquer enrascada, menos da uma mentira feminina.

Não tem como, impossível reagir, jogue a toalha. O homem parece sempre que está mentindo. Quando tenta rebater uma mentira parece que continua mentindo.

Ao nascer, não desfruta de chance para estragar sua reputação. Já é estragada. Séculos de dissimulação o trancou definitivamente na oficina de Gepeto. Será culpado antes do julgamento.

Ubiratan foi vítima de uma das infalíveis fofocas. Descobriu que comeu Adriana. Não comeu Adriana, senão teria se lembrado. Adriana partilhou o falso segredo logo com sua irmã, que foi tirar satisfação do motivo de transar com sua amiga.

- Pô, sacanagem, né Bira?
- Não comi Adriana.

Mas falou rindo. E a irmã acreditou na Adriana e não nele. E espalhou - para quem não ouviu a história - que seu irmão comeu descaradamente a Adriana e ainda quis enganá-la.

Mania masculina de dizer a verdade rindo. Cria suspeita de que ele não pode admitir e, portanto, recusa a acusação. Sua resposta foi zombateira, como um arroto de criança depois de coca-cola. As mulheres confiam que a mentira masculina é um hábito, não uma exceção.

O riso é um problema de escapamento viril. Há uma perturbação hormonal para colocar em sua conta qualquer trepada, real ou fictícia. Paga a rodada no escuro. Não reage com uma honestidade lacônica, taciturna, dramática. É atingido pelo convencimento, adoecido pela vaidade. Contorce sua expressão em sarcasmo.

- Imaginaaaa, euuuu?

Não percebe que dilatar as vogais é artifício manjado das atrizes pornôs e dos mentirosos.

E a mulher conhece essa fraqueza do homem de nunca negar um caso e arma a maior confusão. Monta em suas costas.

Homem numera para cima no jogo de porrinha. Fracassa ao refutar que comeu uma mulher, com exceção do casado e com todas as provas ao contrário.

A questão é: sexo para o macho não é difamação, é reconhecimento.

A vontade do Bira era a de extravasar de que comeu Adriana mesmo que tenha sido um engano. Seduzido pela alegria da confusão. Privilegiou a fama - pois compreende que a verdade não acrescenta biografia.

Mais tarde, sensibilizado pelo reconhecimento precoce e investimento a prazo, Bira terminou trepando com Adriana. Vacilou novamente em seu momento de remissão:

- Foi genial, a impressão é que ela já me conhecia.

9:56 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 02, 2008




De onde veio a inspiração para as crônicas de Canalha?
CARPINEJAR: De uma provocação. Bom livro é aquele que nasce de um desaforo. Sou um cara que solta os piores palavrões do mundo quando está feliz. Palavrão não é para tristeza, é para comemorar a vida. Ou um título de futebol. Ou as delícias de um amor. Escrevi Canalha! para mostrar que tenho alma masculina e não sou menos sensível por isso. Não julgava justo que digam que homem quando entende as mulheres tem alma feminina. Não somos desalmados. Nossa alma tem um tempo diferente, mas é capaz de soprar com igual força palavras bonitas e contundentes. Desculpa a decepção, Chico Buarque também tem alma masculina. Sou contra almas gêmeas. A diferença atrai. Almas também gostam de sexo e não desejam manter laços filiais. Aliás, sou partidário de um verso de Manuel Bandeira: os corpos se entendem.

O que as leitoras do livro dizem pra você?
CARPINEJAR: Elas entendem o quanto o humor desarma os preconceitos e aproxima, seduz e prolonga o gesto. Nada mais assexuado do que um homem mal-humorado, não é verdade? Vou te contar uma história: para entender a força mitológica do Canalha! Fui pedir um carro no aeroporto de Guarulhos. Numa banca de tele-táxi. Aquela história de pagar antecipado com cartão a preço fechado. Pedi um desconto para atendente.
- Sou professor, há desconto?
Ela disse não.
- Sou jornalista, há desconto?
Ela disse não.
- Sou escritor, há desconto, por favor?
Ela disse: - De jeito nenhum.
- Sou canalha, há desconto?
Ela respondeu, rindo: - Fechado.
Um canalha merece 10%...

Há uma intenção de “auto-ajuda” nos seus textos?
CARPINEJAR: Auto-ajuda é para quem não consegue fazer literatura. Eu não explico, confundo. A partir do cotidiano mais singelo, reinvento a vida. Procuro o sublime no singelo. Não estou acima do leitor para ensinar nada. Minha vulnerabilidade é que me liga ao público. Sou contraditório, sempre disposto a mudar de opinião, para fortalecer o caráter. Pior mudar de caráter para permanecer com a mesma opinião. O que me irrita é a sensação de perfeição que tentamos repassar para os familiares e colegas. Chato ser perfeito. Afirmo no livro que mulher não se interessa pelo homem perfeito, homem perfeito é cadáver. Profissionalizamos o sofrimento. Repassamos todos os problemas ao psicólogo e terapeuta e deixamos de nos confessar aos amigos e família. Amor é para ser partilhado no boteco, com toalha de mesa plastificada e um saleiro de porcelana. A ressaca tem que ser maior do que a dor – é o único jeito de curá-la.

Qual a maior canalhice que um homem pode cometer hoje em dia?
CARPINEJAR: Não falsear ou fingir. Ser leal do princípio ao fim. Avisar do pior com graça para que tudo depois seja agradável. O canalha não é o mesmo dos anos 60 e 70. O grosso. O sem modos. Mas afirmativo, seguro, com uma virilidade sensitiva. Ele fala pela audição, aprendeu a ouvir. Não será preconceituoso. Pelo contrário, sensível e culto, com completa aversão às brincadeiras homofóbicas. Trata-se do ideal de homem porque é imperfeito. Brinca com suas gafes. Seu espaço é o do improviso e do enleio precioso. Detalhista ao extremo: olha uma mulher como ela se observa. Relata de cara de que é um canalha e quais são seus defeitos. Não esconde o jogo. Age na transparência. Não será desmascarado porque já avisou. Não sofre, portanto, com a propaganda enganosa. Conquista porque o prazer não está nele, mas em dar prazer. O cafajeste é muito ensimesmado, ambiciona unicamente satisfazer seu desejo. O cafajeste é egoísta. O canalha é generoso.

Existe alguma particularidade do canalha gaúcho?
CARPINEJAR: Admirar mulheres com meias. Eu adoro. Não pedirei para que tirem. Um fetiche. São homens que conhecem os macetes do inverno. Não morrem sufocados pelos edredons, nem ficam enrascados com o frio. Aprendem a tirar qualquer peça (são várias camadas) com a mão trocada. Agora estou treinando meus dentes. Um dia exercito a telepatia.

As mulheres de hoje estão mais preparadas para os canalhas?
CARPINEJAR: Acho que sim, inclusive porque elas também podem ser. Admiram a coragem de amar do canalha: a franqueza, a entrega. Sabem que não adianta cortejar, é preciso assumir o destino da boca. O verdadeiro romântico não é apenas o que despe fácil, é o que ajuda a mulher a se vestir após a transa. O canalha fala certo no tempo certo. Faz com que a mulher se descubra mais do que descobri-la. Um canalha com poesia é muito perigoso. Indomável.

Recomende três livros que um homem tem de ler.
CARPINEJAR: De três canalhas e cronistas líricos brasileiros: "O Óbvio Ululante" de Nelson Rodrigues (para não aceitar frases-feitas), "200 crônicas escolhidas" de Rubem Braga (o erotismo está em descrever o mundo nos ouvidos do leitor) e "Seja feliz e faça os outros felizes" de Antonio Maria (um homem nunca é feio quando domina a palavra).

Revista Sexy, Outubro 2008, Edição 346, páginas 70 e 71.

5:10 PM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 30, 2008


AMANTES QUEREM CASAR
Arte extraída da revista Seleções
Reader's Digest (Outubro de 1969)

Fabrício Carpinejar

Ninguém agüenta ser amante muito tempo.

O trauma dos amantes é que eles não querem ser amantes. Não curtem. É como um torcedor declarar que adora ver seu time de coração na série B, não cabe, não dá. O desejo é retornar à Série A. Mas o que está errado é o sentimento diante da história, não a história.

Porque ser amante não significa segunda divisão, assim como ser casado não expressa uma elite do amor. Ai que nó.

É como um engenheiro trabalhando como balconista, confessa que é passageiro, é como uma advogada trabalhando como manicure, alega que é provisório. Mas exercer os papéis de balconista e manicure não são depreciativos, é a comparação social que os torna inferiores. Incorporamos a convenção de que a engenharia e a advocacia são melhores ao exigir esforço, estudo e dinheiro.

Infelizmente, amante guarda um apelo de rejeição, de transitoriedade: se é ou se exerce a condição na ausência de uma situação duradoura e estável. Amante é passagem para uma história completa. Uma transição. Experimentar a catacumba dos motéis e horários quebrados para retornar à claridade. Responde a um sacrifício para conquistar definitivamente uma pessoa.



Não somos treinados a suportar um amor sem alarde. O problema dos amantes não é a falta de amor, é a falta de manchete do amor, a impossibilidade de contar aos outros que está se amando, já que os envolvidos são casados.

Pares terminam separados pela ausência de visibilidade e reconhecimento social, nunca em função de uma redução do amor. É como deixar de torcer pelo time, pois ele não ganhou nenhum título.

Um casal de amantes pode ser - mal ou bem - a história completa. E se a aventura é o máximo que cada um pode chegar ou atingir de entrega? Casando, será que os amantes não voltarão a dedilhar o tédio que escaparam ao criar um caso?

O amante se define como um constrangimento. Um vexame. Deveria se orgulhar de sua liberdade, da graça da insuficiência, mas insiste em fixar os pés na ante-sala nupcial e aceitar a dependência externa.

Somos ainda institucionalistas, confia-se que o casamento cura ou converte algo negativo (o amante) em algo bom (marido ou esposa). O que mudará com o casamento é somente a exposição oficial do que ocorria em surdina. Por isso, tantos amantes lamentam que o outro não "assume a relação". Assumir a relação é casar. O que eles procuram é uma promoção. O ambiente amoroso permanece carregado de um jargão profissional.

De modo paradoxal, o que um amante mais deseja é dormir de conchinha ou que seu parceiro perca a hora e não vá de madrugada depois de transar. Que permaneça na cama a oferecer um colo muito próximo do concedido no matrimônio. Não é intrigante que a prova de confiança pretendida pelo amante seja andar de mãos dadas nas vias mais expressas ou beijar em público? Afirmação ao amante é negar sua natureza proibida para se aproximar da visibilidade marital.

Os amantes são os monogâmicos ocultos. Os monogâmicos tímidos. Não sobrevivem ao jogo instável, dispersivo e intenso do sigilo. Entram num caso para legitimar e regulamentar a relação.

O canalha nasceu para perpetuar a crise. Não é minha invenção. Para mostrar que o amante não é o subdesenvolvido do afeto, como se acredita, ou que o casado é o civilizado da paixão, como se imagina.

9:07 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 29, 2008

GULA DO DESEJO



Casada com homem lindo, honesto, carinhoso, trabalhador e rico. Perfeito? Não, acabou se envolvendo com jovem no ambiente de trabalho. Não suporta a culpa e a aflição de uma vida dupla. Pede um mapa ao Consultório Poético.

Confira meu palpite e dê sua opinião.

10:27 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 28, 2008

13º ANDAR
Arte de Edward Hopper

Fabrício Carpinejar



Quando não somos esquisitos, a vida nos devolve a estranheza.

Ela não nos deixa desligar nem um pouquinho, ou se acostumar com o que descobrimos da gente.

Estava hospedado no hotel ERON em Brasília. É ERON, mas não é. É também AIRAM. Ter dois nomes confunde, os taxistas é que gostam para prolongar contornos. A mitologia não pára por aí. AIRAM é MARIA ao contrário. Mastiguei a teoria de uma paixão secreta do fundador do hotel, que inverteu o nome como quem faz um acróstico a uma amante.

Meu quarto era o 1013. Embaralhei os números e fui subir para o 1310. Encardi as pupilas: cadê o 13º? O prédio tinha 17 andares e o tabuleiro luminoso do elevador não continha o 13º. Articulei a hipótese de que o fundador do hotel desfrutava de um ódio infinito ao Partido dos Trabalhadores.

Desci no 12º e fui procurar a escada. Não havia saída aos lados, coisa parecida, portão de ferro. Um edifício sem escada é uma casa sem quintal. Nervoso, arranho minha mão esquerda com a direita. Abro dois sulcos para me sentir vivo. Entrei de novo no elevador. Conferi se não sofri alguma alucinação passageira (afinal estava chovendo em Brasília), colei meu rosto nas teclas dos andares. Sem 13º mesmo. Temi aquelas lendas de pacto com o diabo e de filmes de terror, onde o hóspede nunca consegue abandonar o aposento, a porta fecha com trancas imaginárias e o freqüentador é apedrejado intelectualmente por fantasmas e suicidas histéricos.

Desci à portaria e perguntei o que estava acontecendo.

- Não, seu quarto é no 10º. 1013, senhor.
- E o 13º, onde está?
- Ele não existe, senhor.
- Quando desapareceu?
- Nunca existiu, senhor.
- É superstição?
- Não sei do que está falando, senhor.

Um andar inexistente é mais assustador do que o meu rosto assustado. Segui viagem. Desenhei a conclusão de que o fundador do hotel é místico e não admite a entrada de números azarados em sua construção, muito menos em sua rotina. Deve encharcar de corretivo os dias 13 do calendário. Não aceitará nenhum empregado que nasceu no dia 13. Não pagará o 13º salário por uma questão de princípio. Não marcará nenhum encontro às 13h. Escapará de qualquer numeração que resulte em treze, seja placa de carro, seja número de telefone. Seus filhos pulam de idade quando completam treze anos.

A confusão foi uma parábola, precisava disso, os mensageiros se encontram condensados nos canhotos das lembranças. Como ele, temos a impressão de que podemos suprimir um andar de nossa memória. Uma mulher que amamos loucamente, por exemplo, afirmando apenas que ela nunca existiu.

Ah, que pretensão. Apagar não é extinguir. Ela estará lá mesmo quando não a chamamos. Sua ausência é mais curiosa do que sua proximidade.

Por mais que o hotel altere a elevação aos céus e a descida ao inferno, o 14º é o 13º.

Esquisitice total é ter mexido em meu bolso e conferir, já de volta, o número do quarto anotado pela atendente. 1310.

Ela se confundiu ou fugi de algum encontro com meu próprio destino.

9:32 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 27, 2008

FINAL DE SETEMBRO E PRIMEIRA QUINZENA DE OUTUBRO

30/9 (terça), 21h, Porto Alegre (RS)
Sarau Elétrico Canalha
Foto de Cynthia Vanzella



Canalhice em horário nobre. Farei leitura de textos do "Canalha!" e sessão de autógrafos do livro, além da saborosa conversa com Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno, Claudia Tajes e Katia Suman.

O Sarau Elétrico acontece todas as terças-feiras no bar Ocidente desde julho de 1999 e é um dos encontros literários mais desencanados do país.

Transmissão ao vivo do programa Camarote TVCOM.
Canja musical: ROCK-RS, com KING JIM & friends.

Local: Bar Ocidente
(Avenida Osvaldo Aranha, 960 / Entrada pela João Teles
Bom Fim Porto Alegre Tel: 51 3312-1347)
Ingresso: R$ 10

1º/10 (quarta), 19h30, Belo Horizonte (MG)
Sempre um Papo



Debate e sessão de autógrafos do livro "Canalha!" (Bertrand Brasil)
Local: Teatro João Ceschiatti
Entrada franca
Informações: (31) 3261-1501

2/10 (quinta), 20h, Porto Alegre (RS)
Crônica e Poesia: a confluência na linguagem
Atuo como mediador (melhor, provocador)
Participação de Marlon de Almeida e Rubem Penz
Local: Café Concerto - 2º andar
Avenida Alberto Bins, 665 Porto Alegre

9/10 (quinta), 16h30, Porto Alegre (RS)
Feira do Livro Psicanalítico de Porto Alegre
Promoção CEP de PA


Mesa-redonda: Escrita Literária e psicanálise: cruzamentos criativos
Ao lado de Leonardo Francischelli e Ana Cássia Fruett
Local: Hotel Plaza São Rafael (Av. Alberto Bins, 514, Porto Alegre)

11/10 (sábado), 19h40, Porto Alegre (RS)
2º Porto Poesia


O inferno não são os outros: performance e interpretação de Carpinejar de suas crônicas e poemas, além de textos escolhidos de outros autores.
Local: Museu do Esporte Shopping Total
(Cristovão Colombo, 545 Fone: 51 30187000)

13/10 (segunda), 19h30
Fronteiras do Pensamento


Conferência
Pedro Juan Gutiérrez e Fabrício Carpinejar


Local: Salão de Atos da UFRGS
(Avenida Paulo Gama, 110 - Porto Alegre Tel.: 51 33163058)

8:33 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 25, 2008

SÓ O CÃO MANCO É FIEL
Arte de Paula Rego

Fabrício Carpinejar



De manhãzinha, na Praça dos Brinquedos, uma jovem costuma ser seguida por um cão manco.

Não decifrei se o animal é dela ou um adorador de seu perfume. Ele vai atrás, o pêlo negro reluzente, não ao lado, o que não me permite concluir sua ligação direta.

Mas o que posso constatar - sem conhecer patavina da história - é que um cão manco é muito mais fiel do que qualquer cão. Um cão manco é leal como Jó a Deus, como Caim a uma pedra, como Hamlet ao fantasma do pai. Atravessa o inferno com suas três patas. Sua dificuldade em andar eleva a sua escolha. O trotear mostra que não é um desejo à toa, baldio, é um desejo que vem de uma superação. Ele não segue porque simplesmente pode seguir, por curiosidade e instinto. Segue apesar da impossibilidade. Não está se mexendo naturalmente, mas revirando a boca em cada manobra. Equilibra seu corpo todo para um lado, com uma disciplina inaudita, escorando-se no vento não sei bem como.

Não me dá pena, ele me irrita. Sua distorção o humaniza. É o oposto das minhas facilidades. A contrariedade que não se entrega. Além do hálito de coberta velha, exala uma confiança de quem suportou a tragédia - um atropelamento ou uma luta entre seus iguais - e não se diminuiu. Um vira-lata antes da amputação. Depois, a ferida desenhou nele uma árvore genealógica de guerreiros.

O cão manco pára e me analisa. Não pede um afago e comida. Encara como se eu fosse uma rua desesperada. Perde comigo um tempo precioso da sua caravana. Serei seu esforço dobrado para emparelhar novamente os passos e alcançar a jovem. Aquele olhar franzino e minúsculo tem um custo. Não foi de graça. Está me desafiando. Por um instante, estamos misturados.

Homem que não tem um cão manco em si não será leal. Um homem sem dor nunca buscará uma mulher seja onde for. Um homem que não chorou envergonhado, que não se questionou e não faliu não terá nada a caminhar além do que se espera. Um homem que não percebe que as latas de tinta enferrujam e deixam marcas indeléveis nos azulejos não tem compaixão pelos ciscos. Um homem que não foi derrotado, que não assoou o nariz nas mangas da camisa, que não foi barbudo sequer um dia não seduz, aguarda em casa. Não tem pressa, não tem medo, não tem como participar da sinuosidade do pensamento feminino, que se contradiz para pedir ajuda. É imbatível, não é homem ainda. É uma espera de homem. Vai descartar amores porque não suportou seu próprio abandono.

Um homem sem um cão manco latindo em seus braços não consegue nem se acompanhar.

9:39 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 23, 2008

FACEIRICE DO CANALHA
Arte de Waldemar Cordeiro


O "Canalha!" (Bertrand Brasil) aparece em quinto lugar na relação dos dez livros mais vendidos do Jornal do Brasil (Caderno Idéias, 20/09/08), na categoria Ficção. Ei, nem acredito. Agradeço aos leitores que andam me espalhando entre os amigos, e que me guardam nas mãos mais do que na estante.

7:15 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 22, 2008

MARAVILHOSAMENTE

Fabrício Carpinejar



Vicente gosta de jogar futebol. Vicente gosta de jogar cartas de Supertrunfo. Vicente gosta de cavar a terra com pá e galochas. Vicente gosta de colecionar figurinhas. Vicente gosta de desenhar deitado no tapete. Vicente gosta de ajudar a mãe na cozinha. Vicente gosta de ir ao cinema e comer pipoca para acumular pontos. Vicente gosta de escolher sua roupa e colocar a camisa nova por cima de uma velha. Vicente gosta de jogar farelos para as pombas antes de chegar à escola. Vicente gosta de cortar os cabelos de seus bonecos. Vicente gosta de receber camisetas de times. Vicente gosta de tornear esculturas de argila. Vicente gosta de jogar videogame. Vicente gosta de classificar restaurantes. Vicente gosta de dormir no carro. Vicente gosta de tirar fotografias. Vicente gosta de limpar os farelos dos salgadinhos nas calças. Vicente gosta de freqüentar o estádio. Vicente gosta de comer sorvete contornando as beiradas. Vicente gosta da sexta-feira.

Entre tantos gostos, o que meu filho mais gosta?

Observava o guri no final de semana. Com respeito. Como se fosse o pé direito de um quarto. Ele não parava quieto. Sua felicidade no final de semana é narração. Aponta e fala. Fala o que aponta.

Posso estar enganado, mas o que meu filho realmente gosta é de conversar.

Quando não cancelamos os ouvidos para forçá-lo a se ocupar com suas coisas. Não o empurramos ao seu canto e para seus brinquedos. Não o diminuímos diante de nossas leituras e afazeres miúdos.

O que fará uma criança crescer confiante é o tempo que dedicamos para escutá-la. É o tempo que propomos perguntas e a continuidade do raciocínio. O tempo em que legitimamos suas descobertas. O tempo em que não suspendemos sua curiosidade com elogios vadios: que bonito!, ótimo!, é isso mesmo!. Exclamações que pretendem enterrar o assunto e nos liberar para nossas atividades.

Ele se verá importante se eu valorizar o que ele escolhe para dizer, seus rascunhos e vacilações, seu modo de se organizar. Não é enchendo de mimos e presentes. Não é numa semana hiperativa, com passeios emendados e a adrenalina das surpresas. Toda criança tem um acesso estreito de sua imaginação para os pais. Deixará aberto se for usado. É tabuada: nenhuma criança dorme com a porta fechada, por que fechá-la durante o dia?

O autismo vem no momento em que a solidão é maior do que nossa capacidade de explicá-la.

Numa manhã e tarde modorrenta, com chuva intensa, trancados na residência, faltou luz. Escureceu dentro e fora. Acendemos velas e ficamos ao redor de uma mesa, brincando de adivinhar vultos, gesticulando fantoches nas paredes. A cera derretendo dá vontade de pescar sombras. De minha parte, conversava para matar o tempo e espantar o período de exceção. Reagia mais ao tédio do que à vida (mas é somente no tédio que suspiro). Restava a certeza de que era o pior dia do Vicente. Ele não fez nada do que admirava. Não brincou, não alisou o pó de seus carrinhos, não circulou pelo terraço.

Ao cabo da noite, ao apressar as cobertas e a virada do calendário, me confessou que nunca tinha sido tão feliz. Como? Sim, o óbvio é o imprevisível; por um momento contou com a audição de meus cílios. Maravilhosamente, eu olhei o que ouvia, não ouvia como quem olha. Sem querer, não descolamos um minuto da respiração. Um poderia embaçar o rosto do outro, tamanha a proximidade.

Meu filho procura entender o mundo. Posso ajudá-lo. Talvez ele tenha mais chance do que eu.

9:43 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 21, 2008

A VIDA É MAIOR DO QUE A VERDADE
Filosofia em Comum, de Márcia Tiburi, faz crítica ao mau uso das palavras e ao pensamento hermético

Fabrício Carpinejar*
Fotografia de Renata Stoduto



O poeta Mario Quintana elaborou uma distinção espirituosa entre o crítico e o leitor.

Diante de uma borboleta, o leitor exclama: "Olha uma borboleta!"

O crítico revida, entediado:

- Ah! sim, um lepidóptero...

A filósofa Márcia Tiburi tenta transformar o lepidóptero novamente em borboleta, e lança Filosofia em Comum para descascar o jargão da área (inacabar a fala, já que o jargão é um dizer acabado).

Uma obra sedutoramente estranha porque é uma ponte de conversa até o livro. Não é feito para filósofos, mas para iniciantes.

A autora partilha a palavra Taumas em sua aparência e essência, ou seja, um espanto com as coisas que existem. Quando pensamos que ela vai para um lado mais acadêmico, ela finta e vai para outro lado mais bossa nova. Cheia de dribles e um inusitado faz-de-conta da subjetividade.

Diante dela, o público se sentirá envolvido como uma conversa fiada. É um método criativo para descobrir a leveza do pensamento e estabelecer que a verdade não é maior do que a vida. Pois estabelece a estética de conversar mais do que de resumir, talvez pretendendo glorificar o prazer do convívio.

Diferente do O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, Tiburi não romanceia a charmosa biografia dos filósofos, mantém seu foco no devaneio. Não quer nos conduzir ao universo da filosofia, e sim provar que a filosofia é parte da rotina.

Nem todos são filósofos, entretanto, todos precisam da filosofia. Quem não agüenta o vazio é determinado por ele.

Basicamente, encarna uma história das idéias sobre as idéias partindo do senso comum.

Usa a seu favor sua experiência comunicativa de sala de aula e do programa Saia Justa. Ela escreve como fala. Simples, não subestimando o interlocutor, mas propondo perguntas e respostas ingênuas que muitos não teriam coragem de fazer, preocupados em preservar uma falsa erudição. "Filósofos nunca foram sábios, são apenas perguntadores, provocadores dispostos à aventura do conhecimento, da busca da verdade, mesmo que ela não seja apenas diversão", diz.

O livro é um manual de pensamento experimental, ou de desorientação orientada, ou - como afirma a escritora - um dispositivo para destruir os rótulos do que conhecemos como pensar. Pensar é discordar do pensamento, suportar o horror metafísico do não saber, abrir-se para a curiosidade selvagem da ignorância. "A ignorância é a medida do conhecimento", explica. Invoca uma espécie de ceticismo esperançoso: listar as certezas pelas incertezas, e crer na dúvida.

Esse é o primeiro ponto: ninguém sai do livro sabendo, sai do livro não sabendo, mas sabendo que não sabe. Dar consciência é experimentar a responsabilidade de formular uma visão de mundo por sua conta e juízo.

Nesse sentido, a escritura destaca mais a liberdade de pisar em falso do que acertar o passo com o escopo enciclopédico.

Transfere para a filosofia o que Italo Calvino empreendeu na literatura em Se Um Viajante Numa Noite de Inverno. No romance, Calvino narra o leitor chegando à livraria, folheando o próprio livro, apaixonando-se por uma leitora. O enredo, em suma, é o leitor. Em igual acrobacia, Tiburi enxerga o leitor com ela, interpela diretamente ("Isso mesmo, vou descrever o que penso, eu mesmo; primeiro eu, depois você"), criando blocos do texto em itálico para aumentar a identificação. A descrição do pensar é o que importa.

Uma das descobertas de Márcia Tiburi consiste em propor no subtítulo o ato de "ler junto". Quebra a soberania da solidão da leitura, a monarquia da absorção do conhecimento. Se dois lêem ao mesmo tempo, não haverá concordância, acelerando o atrito e a contestação. Ler sozinho é concordar, ler acompanhado é discordar. Ler acompanhado é explicar o que não entendeu e pedir explicação, é abandonar verdadeiramente o livro.

Assim o leitor nem é leitor, é ouvinte, numa postura socrática de ler em voz alta a alguém, esquecendo a própria leitura e cedendo aos comentários e inserções verbais do outro. É como um volume vazado pela casa. Inundado de registros paralelos. Não é uma obra parada, "agora vou ler"; está em movimento, "agora vou caminhar".

O que Márcia Tiburi articula não é fácil, atende a dois deuses do discurso, reunindo o alto e o baixo ao planificar o raciocínio e aprofundá-lo simultaneamente. Às vezes, repercute introduções dispensáveis ("O que aproxima a filosofia e a poesia é o fato de que se elaboram por meio de palavras"). Na maior parte, apóia-se na obviedade para acender as luzes da densidade ("Posso até dizer que o ser da linguagem é o impreciso que nela habita").

Sua teimosia está em recuperar a noção da filosofia como gesto, criticando que ela se acomodou na forma de literatura e se cristalizou como escrita. O fulgor literário seria apenas um dos momentos, não o único. A filosofia requer um segundo tempo, performático. Criar uma ação com o corpo, empregar a voz como laço da palavra.

A filosofia não poderia ter encontrado atriz mais contundente.

* Fabrício Carpinejar, escritor e jornalista, é autor de Canalha! (Bertrand Brasil, 2008)

Filosofia em Comum
Márcia Tiburi
Record
184 págs., R$ 24


Publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Caderno 2/Cultura, 21/09/08

10:09 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 19, 2008

PRÓXIMOS EVENTOS

GARIBALDI

Sou o escritor homenageado da Feira do Livro de Garibaldi, na serra gaúcha. Confira minha programação na cidade:

23/9/08 (terça)

9h - Palestra
Local: Salão Comunitário do Bairro Cairu

14h - Palestra
Local: Salão Comunitário do Bairro Cairu

19h - Abertura Oficial da Feira do Livro de Garibaldi 2008.
Local: Clube 31 de Outubro

PORTO ALEGRE

24/9/08 (quarta), 20h
Diálogos contemporâneos sobre sexualidade
Sexualidade homo, bi e hetero: os limites do deciframento

Debate ao lado dos psicanalistas Antonio D'Arriaga, Vera Mello e Maria Tereza Borba e do urologista Walter Koff.

Promoção: Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre
Local: Auditório da Livraria Cultura, do Bourbon Shopping Country
Av. Túlio de Rose, 80 - Loja 302 Tel. 51 3028-4033 Porto Alegre


BELO HORIZONTE

Participo de debate no projeto "Sempre um Papo" e faço minha sessão de autógrafos do livro "Canalha!" (Bertrand Brasil) em Belo Horizonte (MG).

1º/10/08 (quarta), 19h30
Local: Teatro João Ceschiatti
Entrada franca
Informações: (31) 3261-1501
http://www.sempreumpapo.com.br



PORTO ALEGRE

2/10 (quinta), 20h
Crônica e Poesia: a confluência na linguagem
Mediador
Participação de Marlon de Almeida e Rubem Penz

Local: Café Concerto - 2º andar
Avenida Alberto Bins, 665 Porto Alegre

9:44 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 18, 2008

OPERAÇÃO MÃOS LIMPAS
Arte de Pieter Brueghel

Fabrício Carpinejar



Compreendo quem leva o jornal para relaxar no banheiro de sua casa.

Natural. Assim como revistas.

Não sou fã da idéia de transportar livros para o vaso.

É muito triste pensar que estou sendo lido naquele momento.

O cara cagando e me lendo.

Prefiro uma cagada analfabeta a uma culta. Rogo para não ouvir tal confidência. Não me conte detalhes. Não me fale pormenores.

Ele sempre vai me relacionar ao barulho da descarga.

Eu dependerei mais do funcionamento do seu estômago do que do seu cérebro.

Se sofre de prisão de ventre, é admissível ler toda minha obra e ainda reclamar que escrevo pouco.

Livro no banheiro é uma opressão. Nem o futuro alívio melhora a frase.

Quando estagiava numa repartição pública, enfrentava a tortura de um colega, que pedia o jornal emprestado e se trancava no toalete. Sou cheio de pudor em ¨¨¨¨¨¨ no trabalho. Só em apuros. Creio que sou pago para me controlar. Mas esse amigo não carregava nenhuma vergonha, somente o caderno de esporte. Aprumava o passo para suas necessidades.

Todos os amigos conheciam seus horários. Uma certeza folclórica, talvez meteorológica. Tomava o jornal e os presentes franziam as testas, tolhidos, não desejando participar - ainda que passivamente - daquela consciência. Aflitos por observar o gesto dele. Com cara de supositórios. Propensos a entregar a carta de demissão para não serem incluídos como testemunhas.

Tão esquisito encarar alguém com a certeza de que ele vai cagar. Perde-se, mais do que a inocência, a esperança na civilização.

Ele entregava o jornal depois, com uma anuência de ovelha depilada. Encarregado da clipagem, eu desprezava dezenas de matérias. Recortes importantes não entravam de propósito. Escolhia minha incompetência para preservar a higiene. Como adivinhar se ele lavava as mãos. Sei lá. Não há como lavar as mãos porque o jornal acontece durante.

Quando tocava o telefone para ele, no momento de sua - digamos - leitura, o pessoal gaguejava ao explicar que ele já voltaria. Evidente que, ao escutarmos que "ele já volta", entendemos que está no banheiro. Descarta-se uma reunião ou uma passagem na copa para encher a xícara de café. "Já volta, rapidinho" é uma mijada. "Já voltaaa!" é uma cagada. Quem atende ao telefone tem a exata noção se o parceiro está entre um ou o outro.

Esse amigo tirou férias e curti a liberdade provisória de picotar o papel sem sofrer com a obsessão de limpeza.

Até que ele apareceu, em pleno descanso, no mesmo horário, para solicitar o jornal e repetir religiosamente seu expediente biológico. Depois do feito, devolvia o suplemento, dava tapinhas em minhas costas e rumava para a rua.

Não era a leitura que o acalmava. Precisava me constranger.

10:43 PM :: Comentários:

ENQUETE



Qual foi o jogador brasileiro mais inteligente em campo nos últimos trinta anos?

Torcedores de todos os credos e camisas, votem no blog Rolo Compressor.

11:58 AM :: Comentários: