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    Sexta-feira, Julho 03, 2009

    JÔ SOARES

    Uma segunda chance para quem perdeu minha entrevista no programa de Jô Soares, da Rede Globo. Veja a animada conversa exibida na noite de quinta (2/7).



    2:26 PM :: Comentários:

    PERDÃO SENSUAL
    Arte de Jean Baptiste Camille Corot

    Fabrício Carpinejar



    Matava o tempo antes de pegar a estrada, com um copo de café gemendo em minha boca.

    No canto da cafeteria, uma moça escrevia no seu computador. Buscava um pensamento fora e se vidrava novamente na tela, obcecada a encontrar a frase melódica antes de mim.

    Quando ela foi se espreguiçar, eu vi. Vi o luzeiro de sua pele por uma fechadura minúscula.

    Sua camiseta básica estava rasgada debaixo dos braços. Um pequeno furo. Tolo e miserável corte.

    Pela pilha de casacos e blusões na cadeira ao lado, ela nem deveria ter notado. O inverno tem a mania de sonegar a penúria do pano. Somos um excesso de andares de golas de manhãzinha e um térreo na hora do almoço. Na rua, as pessoas carregam seus sobretudos como engradados de cervejas.

    Ela não me viu. Mas eu insisti em olhar. Queria que ela se espreguiçasse de novo.

    Quem sabe era o primeiro rasgo de seu dia. Um rasgo involuntário. Sem campainha, sem som de tecido, sem aquele anzol zunindo na água para avisar os peixes da captura.

    Quase me levantei para avisá-la; eu me contive. Ao confirmar o sinal com os dedos, ela deixaria de usar a camisa. Ou guardaria em uma cesta de vime até encontrar uma folga para costurar.

    Não queria que fizesse isso. Não agora.

    Ela poderia sentir vergonha da mínima gastura na blusa. Gastura da vida.

    Talvez fizesse um comício, um protesto, iria correr ao banheiro.

    Pediria desculpa a todos, a si, aceitaria que é um desleixo imperdoável. Um descuido fatal de sua beleza.

    Mas eu fiquei apaixonado pelo bocejo do fio. Tomado de uma compaixão sensual. Excitado com a ternura. Não há nada mais excitante do que a ternura. A ternura incontrolável do primeiro amor. Do último amor. Beijar os olhos e morder levemente os cílios. Puxar os fios dos olhos.

    Era uma fresta de sua nudez. Uma mulher se produz tanto para sair de casa que aquilo significava um descanso, um domingo repentino, que a tornava ainda mais bonita. Mais humana, mais falível, mais acessível. Transportada acidentalmente para seu quarto.

    Aquele corte desatento criava intimidade. Retribuía infâncias.

    Sua roupa sorria desajeitada para mim.

    Gerava confiança de cotovelos e rostos próximos. Tinha vontade de confessar todos os meus pecados e espantar os insetos da insônia e me curar das noites mal dormidas.

    Um rasgo na camisa feminina é o botão que falta ao homem.

    Ela nos perdoava da aparência.

    11:20 AM :: Comentários:


    Quarta-feira, Julho 01, 2009

    O CANALHA



    O escritor gaúcho Fabrício Carpinejar vai revelar os segredos e macetes do canalha no Programa do Jô. A exibição da entrevista está prevista para a noite dessa quinta (2/7).

    No papo com Jô Soares, Carpinejar explica a alegria de ter nascido feio, as diferenças entre notícia e fofoca e ainda conta detalhes sobre a origem de suas unhas pintadas e dos dizeres que costuma desenhar na cabeça.

    Publicado no Jornal Zero Hora, Contracapa, coluna Roger Lerina
    Porto Alegre (RS), 2/06/2009


    2:58 PM :: Comentários:

    RIVALIDADE IMORTAL



    Futebol é vingança. Inter e Corinthians acertam as contas e a história dos confrontos na decisão da Copa do Brasil nesta quarta (1º/7).

    Rolo Compressor põe o dedo na ferida. Até amputar as pernas.

    "Um jogo nunca termina, resposta de um escore anterior. De uma derrota amarga. De um erro de arbitragem. Da influência da cartolagem. De uma intervenção divina.

    Rivalidade é vingança acumulada: os dois times têm um recalque para superar.

    O apito final é um mero detalhe, uma formalidade para enganar a aflição e prevenir ataques cardíacos."


    11:06 AM :: Comentários:


    Terça-feira, Junho 30, 2009

    RETRATO PINTADO DO CASAL
    Arte de Bruce Nauman
    Para Ruffato, o penúltimo dos românticos

    Fabrício Carpinejar



    Nas moradias do interior, havia sempre dois quadros. A Última Ceia na cozinha e o retrato ovalado do casal de patriarcas no alto da sala. Ambos habituais em residências respeitáveis, consensuais a exemplo da escada em igreja e dos morrinhos em praça.

    Marido e mulher alçados à cúpula de madeira. Maquiados para a eternidade.

    A imagem revelava algo de alucinação. De amor assombrado. De inscrição de lápide. Um retrato que dava a noção de que o homem e a mulher estavam mortos mesmo que andando animados pelos corredores. Colocar quadro de um casal vivo mexia a terra por debaixo das tábuas.

    A casa se tornava um túmulo. A mesa mancaria os pratos. As portas rangeriam portões de ferro.

    Emanava daquele canto uma sensação de irrealidade, de antiguidade precoce. Como a fotografia ficava ruim, um artista retocava os traços com tinta a óleo. Pregava sombra no olho, corava a face, cobria as vestes de tons marrons e azulados. Melhorava o rosto.

    As figuras masculinas ressurgiam com vermelho forte na boca, tomadas de um batom amoroso e fúnebre.

    A fotografia também pedia a mão da pintura. Era e não era aquilo. Duas traições, a do fotógrafo e do pintor, formavam uma esquisita fidelidade. A distorção traduzia a paranormalidade de um longo casamento.

    Numa conversa de café, um amigo - irei chamá-lo de Luiz como meu pai - confessou a dificuldade de encontrar a mulher de sua vida. Quem sabe até encontrou, mas não é igual a merecê-la ou suportá-la. Ninguém tem mais paciência para tolerar um amor real. Prefere um amor dentro de sua realidade.

    Eu perguntei qual o sinal da paixão incondicional: Comprar aliança? Casar? Viver junto? Ter filhos? Repartir as contas?

    O quê, afinal? De que modo expressaria o fim da busca?

    Ele me olhou usando seus pés. Tirou os óculos e envelheceu dez anos. Pedi para que colocasse os óculos para voltar à minha idade. Alinhou as lentes e respondeu:
    - Fazer um retrato pintado com ela.

    Brinquei que parecia idéia ultrapassada. Para mostrar quem manda e impor autoridade aos parentes. Talvez porque seja mais fácil desobedecer a um rosto afetivo do que a um quadro.

    E percebi que me enganei, o desejo foi descendo lentamente em meus ombros, como um casaco redescoberto. E me transmitiu uma tranqüilidade acalorada. Uma paz de copo de água na cabeceira, de terço no retrovisor, de chave no bolso.

    Um retrato na parede pára o tempo dentro de casa.

    Assim como os familiares são lavados e vestidos para o enterro, aquilo era lavar e vestir o par em vida.

    E percebi que não prometemos com medo de não cumprir. Quando falamos que não cumpriremos já estamos fazendo outra promessa. A promessa da negação. Não há saída: o ceticismo é uma fé ao contrário.

    Penso com calma e vejo que a moldura pode ser uma aliança.

    12:04 PM :: Comentários:


    Domingo, Junho 28, 2009

    MEUS FILHOS TÊM PASSADO MAIS DO QUE FUTURO
    Arte de Paul Klee

    Fabrício Carpinejar



    Jogar futebol dentro de casa é um hábito do meu filho. A bola de pano fica cobrindo seu tênis, reforçando o cadarço. Toda porta se converte em uma goleira.

    É natural que as esculturas da sala estejam quebradas.

    A namoradeira na janela foi decapitada. São Francisco de Assis de madeira perdeu seus amigos pássaros. Um pescador viu sua rede e seus peixes levantarem asas. A baiana não segurou o vaso na cabeça. O flautista da Ásia acabou partido em dois.

    A sala é um aprumo, uma beleza, com móveis feitos sob medida. O que fazer com as peças danificadas?

    Não coloquei nenhuma escultura fora. Colamos os objetos em longa entrega. Chegamos a pintar de novo, escová-los com verniz, exercendo o papel de cirurgião da infância.

    Meus dedos estão grudados aos dedos do meu filho de tanto que passeamos pela cola bonder. A textura plastificada não me enerva, é um esmalte transparente da cumplicidade. Coço a mão com impagável orgulho. Como um artesão depois de uma longa trama de cordas. Como um oleiro depois de girar o barro e encontrar as curvas da estrada de Caxias do Sul.

    Não posso ensinar aos filhos a não errar. O que me cabe é ajudá-los a restaurar, a dar a volta por cima, a cuidar do estrago e procurar a dignidade da emenda.

    Há uma obsessão dos pais de fazer avançar a qualquer custo. De ir para frente, de pular de série, de alcançar a excelência das notas, de profissionalizar o tempo e ocupar os horários para não tropeçar em bobagens. Educar é mandar, ser educado é aceitar ordens.

    Tudo é sempre uma única vez, movida a frases sentenciosas “Não irei repetir” ou “Presta atenção”. Quantos meninos e meninas se deprimem por não encontrar uma segunda chance na família?

    Penso o contrário. Sinto o contrário.

    Compreendo que a criança não poderá voar se não andar primeiro. Mais do que nunca, precisa saber voltar atrás. Ter passado mais do que futuro. Isso significa suportar a frustração, reagir quando as coisas não acontecem como esperadas. Contar com tristeza suficiente para sair da tristeza e se levantar. Mimar é não permitir que nada se quebre. Amar, de outro modo, é reconstituir os estilhaços.

    Não penalizar por uma nota ruim com castigo e privação dos prazeres, mas dar a consciência de que o conceito é provisório e que é natural melhorar. Estimular o pequeno com a própria dificuldade. Recompor o que foi estragado, reconstituir um desenho rasgado, remontar os escombros e não se envergonhar pela demora.

    Deixo as esculturas mancas na sala. Não me importo como as visitas vão reagir ou se passarão a me observar com desconfiança. Os defeitos permanecem expostos. A vida é para ser usada.


    Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
    Revista Crescer, São Paulo, Número 186, P. 66, Junho de 2009


    11:40 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Junho 25, 2009



    DON JUAN DAS PALAVRAS

    / ENTREVISTA /
    O autor gaúcho Fabrício Carpinejar fala sobre seus livros e sua carreira

    Carlota Cafiero
    DA AGÊNCIA ANHANGUERA
    carlota@rac.com.br
    Fotos de Leandro Ferreira

    Fabrício Carpinejar é uma pessoa desconcertante. O rosto medieval contrasta com o visual moderno: camisa assinada por Ronaldo Fraga, calça jeans, tênis, unhas de uma das mãos pintadas de verde e a nuca com a palavra “gol” desenhada nos cabelos — ele é fanático pelo Internacional e, na ocasião, o time tinha vencido o Flamengo.

    Poeta, jornalista, professor de literatura e consultor sentimental — também escreve para o blog Consultório Amoroso, em que responde às perguntas enviadas pelos internautas — esse gaúcho de Caxias do Sul, filho dos poetas Maria Carpi e Carlos Nejar, e radicado em São Leopoldo, é dono de uma das obras poéticas mais comentadas e premiadas da atualidade.

    Aos 36 anos de idade, ele é autor de uma extensa bibliografia (confira em quadro nesta página), que começa em 1998, com As Solas do Sol, e é permeada pelas experiências ligadas à terra natal e à família e pela imaginação, como quando se projeta aos 72 anos de idade no livro Terceira Sede — Elegias, de 2001 — reeditado este ano pela Bertrand Brasil.

    Separado duas vezes e duas vezes pai, ele passa a escrever crônicas sobre amor e relacionamentos em 2006. São textos marcados pelo humor e pela autoironia, como se nota no livro Canalha! Retrato Poético e Divertido do Homem Contemporâneo, lançado no ano passado e que deu muito o que falar.

    A entrevista que Carpinejar concedeu ao Caderno C foi feita minutos depois dele ministrar um workshop de poesia no encontro literário Versões — realizado no final de maio, pelo Sesc-Campinas. Era uma noite fria e ele chegou à mesa com dois capuccinos grandes: um para ele e o outro para a repórter, que lhe agradeceu a gentileza. “Não estou sendo gentil. Estou apenas sendo autêntico”, respondeu o poeta, quebrando qualquer formalidade. Leia, abaixo, trechos da entrevista.



    Da Agência Anhanguera — No livro Canalha!, você fala sobre comportamento masculino. O que mudou?
    Fabrício Carpinejar— O homem, antes, era ostensivamente masculino. Hoje, ele é implicitamente masculino. Ele gosta da penumbra. O canalha é viril no silêncio, no mistério.

    Por que o termo canalha?
    Porque é delicioso ouvir de uma mulher que se é canalha. Uma mulher não consegue espantar o homem chamando ele de canalha. Tenta. Fala canalha pra mim.

    Canalha.
    Viu? Você não consegue. A mulher fala canalha sorrindo.

    Eu nunca chamei ninguém de canalha.
    É uma pena. Acho que tem uma lacuna terrível em sua vida. É excitante. Só usa canalha para um homem que não tem como ser corrigido. Canalha é quase uma declaração de amor. Se “tu” quiser abandonar esse homem, vai chamá-lo de pilantra, cretino.

    Todo canalha é sedutor? Seria uma espécie de Don Juan?
    Seria um Casanova. Ele se importa com as mulheres. Ele entende que a mulher não quer o homem, ela quer o homem e seu mundo. Tem de trazer o contexto junto. Você não vai conquistar uma mulher pela conversa que tem com ela, mas como reage conversando, como reage com os amigos, com o porteiro. Ela vai te avaliar muito mais por aquilo que não acontece na conversa.

    De onde vem o seu prazer de falar desses assuntos?
    Sobrevivência. Sou um homem feio.

    A literatura veio como uma forma de compensação?
    É uma maneira de se estender, de se prolongar. De criar personagens, situações, histórias. Não me limitei ao que sou. Me ampliei ao que vejo. O humor me salvou, não a literatura.

    O humor na maneira de viver?
    O homem que não sabe rir de si mesmo não vai sair de uma dor de cotovelo. O sexo termina na amargura.

    Foi por meio da poesia que você conseguiu respeito?
    Eu conquistei o desrespeito, que é uma forma de respeito ainda maior. Um poeta que se dá bem com todo mundo está fazendo uma outra coisa que não poesia. Ele deveria estar trabalhando no Itamaraty. Porque você está num ato de franqueza e transparência inadmissíveis. Tem de ter uma crueldade consigo para não ser cruel com os outros. Você tem de ser prodígio de seus defeitos.

    Você acha que isso aproxima a poesia das pessoas, pela identificação?
    Pela humanidade. Gosto muito de uma frase de Nelson Rodrigues, “toda grandeza desumaniza”. A gente tem que encolher. Nosso corpo encolhe ao longo da vida de propósito. A gente tem que aprender a dar espaço.

    Foi por isso que você se projetou aos 72 anos no livro A Terceira Sede? O que acontecia na sua cabeça naquele momento?
    Uma irritação. Eu ia nos Correios ou no banco e na minha frente tinha um velho que conversava com um atendente. Eu não compreendia que aquele era o momento sociável dele. Tinha um momento em que ele ia para a rua narrar suas proezas prosaicas. Era a maneira de ele existir. E eu tentei me colocar no lugar dele. Depois eu quis me colocar aos 70 anos. Como eu faria? Por exemplo, minha mãe está com 70 anos. Para mim, isso é estar com o pé na cova. E a gente não percebe o quanto envelhece. A gente tem medo de chamar alguém de velho. Acho que esse livro é muito cool nesse sentido. Ele coloca o velho como velho e une as pontas da vida. A infância é um excesso de imaginação e a velhice, um excesso de memória. Ambas têm dificuldades de pensar. Até hoje tem coisas da minha infância que eu não sei se imaginei ou se vivi ou se me contaram. Na velhice, é a mesma coisa.

    Por que a memória tem um papel tão importante na sua literatura?
    Minha memória é uma forma de ter futuro. Ela não se relaciona só com o passado. Assim como o amor presente também altera os amores antigos. A gente altera o passado. O passado não é imóvel.

    Você gosta de viajar no tempo da memória e da imaginação.
    É o que me salvou.

    Salvou do quê?
    Do isolamento.

    Você tinha tendência para se isolar?
    Todos têm tendência de se isolar. Mas eu sou extremamente contagioso. Eu gosto de me contagiar. Sou viral nesse sentido. Acho que meu caminho era direcionado para o encolhimento, para a vergonha, para ficar encabulado. Para uma timidez sem recreio. E eu consegui trabalhar isso que é a exposição. A exposição me protege.

    E aí contradiz aquela imagem do poeta ensimesmado, do poeta solitário.
    Eu não me aguento muito tempo preocupado.

    Mas ocupado sim. Você se isola para escrever?
    Eu escrevo em qualquer lugar.

    Não tem essa coisa do ritual de escrever?
    O ritual de escrever não define minha literatura. O que define a minha literatura é o deslugar. A falta de lugar é o que faz escrever. Não é o lugar. Se você tem um lugar, você não vai escrever. Você está procurando um lugar.

    Mudando de assunto, o governo paulista proibiu fumar em qualquer lugar fechado e quer proibir até quentão em festa junina. O que você acha disso?
    Estão subestimando as pessoas a ponto de dizer que elas não podem decidir. A gente está deixando que o governo escolha por nós. A gente está numa fase em que não quer sofrer, não quer arcar com as consequências. O governo está dizendo que não temos qualidade mental para cuidar das nossas vidas.

    Você acha que as pessoas estão se infantilizando?
    É uma boa perspectiva. Elas estão se infantilizando. Porque elas nem questionam por ter um significado maior, que é a saúde.

    E saúde para quê? O que será que as pessoas querem viver?
    Não importa. O importante é ter saúde, não como você emprega essa saúde.

    No seu blog, você escreveu que alguém tem de ter coragem de envelhecer neste mundo...
    A gente não está preparado para o velho hoje. Que é um velho que envelheceu muito mais do que qualquer outro velho. Eu tenho 36 anos e parece que vivi séculos. A mudança abrupta da tecnologia nos fez envelhecer a ponto de estarmos com 30 anos e ficar com vontade de escrever nossas memórias. Nunca a autobiografia foi tão precoce. Escrevi a minha com medo de morrer antes.

    Será que quando você chegar aos 72 anos vai escrever suas memórias de novo?
    Não sei se vou ter esse capricho.

    Será que você estará vestindo um fardão da Academia Brasileira de Letras?
    Isso não é um objetivo de vida (pausa). Acho que posso pedir emprestado para o meu pai.

    Você está para lançar o livro A Família Não é uma Empresa. Como é esse livro?
    Vou comparar minha infância com a dos meus filhos. O livro trabalha com essa percepção de que a gente precisa ter um lugar para falir. Rivaliza com a autoajuda que trabalha a família como se fosse um negócio, e o filho, um empregado. É um livro para retrabalhar esse sentido de família, de convivência, de contar os problemas em casa.

    O que falta nas famílias de hoje?
    Falta o amadorismo do gesto, o amadorismo da conversa, a inconsequência do afeto. Eu quis trazer toda a minha infância junto da dos meus filhos para ver até que ponto a gente não está permitindo que as crianças tenham cicatrizes. O pai, hoje, acha que tem de sofrer no lugar do filho. A gente se torna velho no momento em que diz que nosso passado era melhor. Eu tentei fugir um pouco disso. Comparo, mas sem estabelecer o melhor, porque até o meu passado precisa ser alterado.

    Pelas memórias.
    Pelos meus filhos. Eles têm a capacidade de me reinventar, de me dizer algo que não fiz naquele tempo. A infância dos meus filhos é contemporânea da minha infância. Eles reparam atitudes, devolvem gestos, recompensam, me preparam para enxergar aquilo que eu queria esquecer. Me preparam para lembrar aquilo que eu precisava.

    É como se você continuasse neles.
    A paternidade é uma paciência consigo mais do que com os filhos. É isso o que a gente não entende. E eles sentem. Mesma coisa que botar uma criança para dormir querendo que ela durma logo a todo custo para poder fazer outras coisas. Eu me lembro que era um liquidificador com a primeira filha, a Mariana, que está com 15 anos. Fui aprender a virar chaleira com o Vicente.

    Você se realiza sendo pai?
    Meu sono mudou. A delicadeza mudou. Ser pai é se permitir a perder tempo. Por exemplo, eu e meu filho temos um país imaginário chamado Lídimo, que significa autêntico e verdadeiro. Então, a gente criou a bandeira, os estados, as capitais e as cidades e está criando o hino. É uma ilha perto da Oceania. O idioma é o português lido ao contrário.

    Isso é perder tempo?
    O que você perde em tempo você ganha em eternidade no teu filho, que é a sequência. O que o filho mais pede é a sequência. Que aquela história que você leu no dia anterior tenha sentido no dia seguinte. É se importar com o lembrar.

    Publicado no Correio Popular
    Caderno C, quinta (26/06/09), Campinas (SP)


    11:18 AM :: Comentários:


    Quarta-feira, Junho 24, 2009

    UM MINUTO
    Arte de Max Ernest

    Fabrício Carpinejar



    Os pais rezavam antes do almoço e da janta. E nos obrigavam a acompanhar.

    Restava engolir a fumaça e adormecer a pele na nuvem cálida de temperos. A comida esfriava à toa.

    Eu me irritava com a demora. Empunhava o garfo para o ataque e tinha que suspender os movimentos selvagens com "Um minutinho, meu filho, a oração..."

    Ave-Maria era um couvert artístico em casa. Uma entrada inofensiva de verduras.

    Desesperador quando o pai estava inspirado e cumpria um sermão ao invés de somente acenar para Deus.

    Na pressa semanal, escutava nitidamente apenas seu sinal da cruz. Durante sábados e domingos, o pai exagerava no discurso diante da possibilidade da sesta e da volúpia do quarto trancado com a mamãe. O sexo o tornava messiânico. O sexo o impelia a acreditar na vida eterna. Um gemido levava a outro.

    Ele agradecia tanto que eu perdia o apetite.

    Comer sempre foi um adiamento. Arrebentei a toalha de mesa pelo controle sufocado dos dedos. Puxava os fios para me distrair. Do meu assento, a madeira da mesa já aparecia contornando o prato.

    Às vezes, ele pedia aos filhos para conduzir a reza e mostrar união familiar. Engasgava, soluçava, tropeçava no colarinho apertado da escola. Lembro que fiquei de castigo ao saudar o campeonato gaúcho do Inter.

    Gremista, enfureceu-se: "Futebol não é religião". Imagina se fosse...

    Achava uma ironia o agradecimento divino ao servirem vagem e bife de fígado. Agradecer aquilo só podia ser uma humilhação. Nestes momentos, entrava em ressaca gustativa e torcia por um terremoto, o soar da campainha, o toque do telefone. Ou que o timbre paterno virasse a Voz do Brasil com uma hora ininterrupta de notícias.

    A saudade apressa túmulos, é o que penso agora.

    Não partilho de crenças católicas, abandonei esse hábito aos oito anos com o divórcio dos pais, sofro de ansiedade, mas não consigo interromper mais o minuto de silêncio da comida.

    Prato feito, hesito, espero a oração em mim. Dobro as mãos como um guardanapo. Espio para cada um de meus filhos como quem limpa o acúmulo da infância da garganta. Parece gripe, mal-estar. Espaço a respiração e giro o rosto para qualquer premonição de som: o vento chiando na janela, o relógio martelando seus pássaros, os latidos dos cachorros.

    Atento como porta de igreja. Certo como um mendigo na escada.

    Meus talheres permanecem bentos, religiosos do suspiro.

    10:44 AM :: Comentários:

    BATE-PAPO EM JUNHO



    25/6 (quinta), 16h, Porto Alegre (RS)
    Colégio Maria Imaculada
    Palestra sobre "Filhote de Cruz Credo"
    Sociedade de Engenharia do Rio Grande do Sul
    (Pedra Redonda, Av Cel Marcos, 163)

    26/6 (sexta), 17h, Canoas (RS)
    25ª Edição da Feira do Livro de Canoas
    Encontro com o escritor Fabrício Carpinejar
    Obra Recomendada: O Amor Esquece de Começar - Ed. Record
    Local: Auditório Euclides da Cunha
    Praça da Bandeira

    26/6 (sexta), 21h30, São Leopoldo
    Sarau Escrevinhadores
    Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos
    Mediação: Fabrício Carpinejar
    Local: Espaço Bellas Artes 1213
    Endereço: Rua Independência, 1213
    Centro - São Leopoldo
    Valor: R$ 6

    10:33 AM :: Comentários:


    Terça-feira, Junho 23, 2009

    LER É CONVERSAR CONSIGO PARA MELHOR CONVERSAR COM OS OUTROS

    Fátima Schenini
    Editora do Jornal do Professor
    Foto de Renata Stoduto



    Poeta, cronista, jornalista e professor, com mestrado em literatura brasileira, Fabrício Carpinejar (junção dos sobrenomes da mãe, Carpi, e do pai, Nejar) coordena e dá aulas no curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos), em São Leopoldo (RS). Também leciona no curso de Formação de Músicos e Produtores de Rock, da mesma universidade. Ele ainda encontra tempo para apresentar dois programas em rádios gaúchas: um de entrevista com escritores e outro de dicas culturais.

    Autor de treze livros, sendo oito de poesia, Carpinejar já recebeu vários prêmios: Cecília Meireles 2002, da União Brasileira de Escritores (UBE); Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras; e Érico Veríssimo 2006, da Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre, são alguns deles.

    Carpinejar fala da leitura em um tom poético e criativo e diz que a estante não tem portas justamente para que as pessoas possam pegar os livros sem cerimônia. Para ele, quando o livro for tão importante quanto um domingo, com certeza os níveis de leitura no Brasil serão muito mais elevados. Leia a entrevista deste talentoso autor e entre no clima do mundo da leitura.

    Se você quer conhecer mais sobre este escritor acesse o site www.carpinejar.com.br

    Jornal do Professor – Em sua opinião, qual é a importância da leitura na vida das pessoas?
    Fabrício Carpinejar – A leitura não nos empresta somente palavras, nos empresta silêncio. Quem não lê dificilmente aprende a ficar quieto, aceitando a solidão como parte do pensamento. Ler é conversar consigo para melhor conversar com os outros. É organizar a experiência. Todo o turbilhão de fatos, lembranças, sequência de nossa vida pode ficar solto sem uma literatura que o organize. Não teríamos hierarquia, ordem, força nas idéias. Seria um caos sensitivo.

    JP – A escola deve incentivar a leitura? De que maneira? Como os professores podem colaborar nesse sentido?
    FC – Totalmente. A escola precisa entender que a criação e a leitura devem andar juntas. Não basta ler poesia, a criança depende de uma oportunidade para brincar com a poesia, escrever, entender como funciona, que ela não é à procura da beleza, é a procura da verdade. De uma verdade pessoal. Nada substitui a descoberta de um dom. Ler é um dom como o de escrever. Requer cuidado, afeto e disponibilidade para unir o que está sendo estudado com aquilo que está sendo vivido pelo estudante.

    JP – Qual é o papel da família na formação dos leitores?
    FC – A tarefa de casa não precisava existir na escola, é da família. O livro sempre foi um elo para entender meus pais. Deixavam cartas dentro das obras, trechos sublinhados. O livro é a toalha de mesa do café da manhã, do almoço e da janta. Objeto acessível, que não era endeusado. Muitas vezes, os pais criam bibliotecas para a criança pedir licença para mexer. Biblioteca tem que ter a naturalidade de nosso braço. É puxar de cima e amar. Assim como o hábito de contar histórias seduz a criança. É um teatro que ela dispõe por alguns minutos para ouvir a voz paterna e materna. Depois, eles vão procurar a voz dos pais nos livros e vão encontrar a sua. O livro fica em nossa vida quando emoldurado de encontros afetuosos. Todo jovem tem uma trilha sonora, eu tenho uma biblioteca para ouvir e guardar minhas mais fortes recordações. A escrita pode ser tão atraente quanto à música. Está esperando bons intérpretes.

    JP – Você acha que é possível despertar o interesse pela leitura em pessoas mais velhas, tardiamente alfabetizadas, os chamados neoleitores? Que ações recomenda nesse sentido?
    FC – Diante da solenidade da leitura, se a criança pede - infelizmente - licença para ler, o adulto tardiamente alfabetizado é obrigado a pedir desculpa. Ele lê com culpa, com medo de errar, de se envergonhar por não ter feito isso antes. O trabalho é retirar a carga de sacrifício e pesar, de vitimização. Cada um tem seu ritmo e sua mensagem. Indicaria o uso da vida cotidiana e o emprego da oralidade criativa e alegre para os neoleitores. Cantar, contar histórias, redigir cartas para família, preencher pedidos de emprego. Ler a vida para ler um livro, para ler depois o livro de sua vida. Outra coisa: somos analfabetos perante os nossos próprios sentimentos. Ninguém é culto o suficiente para lidar com o milagre vulnerável da pele. Diante da paixão, somos analfabetos e vamos soletrar o nome da amada. Diante da dor, somos analfabetos e vamos repetir as tristezas até acomodá-las. Ninguém nunca está atrasado para se revelar.

    JP – O brasileiro ainda lê pouco. Para você, qual a razão disso? O que pode ser feito para melhorar a situação?
    FC – Lê pouco porque não entende a leitura como uma escolha, mas como uma obrigação. E vamos adiar o que não escolhemos. Nesse processo de desvalia, o jornal é menosprezado. O jornal é sempre uma porta de entrada para o livro. No Rio Grande do Sul temos o exemplo de como o jornal é um hábito familiar. Ou seja: cuidar do cotidiano para depois navegar em direção às ilhas mais distantes. Eu acho importantíssimo não se descartar o jornal desse processo, como se fosse um objeto já anacrônico. Acho que o jornal tem um peso que é essa disposição de um tempo para ver o que está acontecendo no seu próprio mundo. É essa disponibilidade que tem de se criar. E a leitura produz um efeito de complicação, de hermetismo, ou seja, uma dificuldade, no caso da poesia. Parece que a gente tem de entender poesia. Não. A gente precisa aprender a lidar com a intuição. A gente precisa aceitar o erro, a falha, o tropeço, aceitar que a gente não vai entender praticamente tudo. A gente vai entender aos poucos, aos goles. É importante que a gente não tenha essa burocratização da leitura, ou seja, fazer com que a pessoa se sinta condenada a leitura. Eu acho que os dividendos e os ganhos a gente verá depois.

    O livro tem de ser muito mais familiar do que a gente costuma ligar, manejar. Tem de ser algo mais acessível. A gente ainda trabalha o livro como estudo, não como prazer. Temos que estudar mais. Então ler mais é estudar mais, é se preparar mais.

    O livro é justamente o contrário também. É como jogar futebol, vôlei. É de uma certa forma se descontrair mais, conversar mais, se alegrar mais. Eu não vejo um produto tão lúdico e tão aberto a essas referências referentes à imaginação. É óbvio que o livro é visto como trabalho. Eu acho que o livro é um jogo. A partir disso, um jogo de idéias, assim como os socráticos e os filósofos gregos se divertiam na argumentação, assim como os repentistas se divertem procurando o riso pelas palavras, assim como os trovadores do RS se divertem procurando a bravata, o chiste. É o modo como a gente lida ainda com a cultura. A gente lida como resíduo de um sistema de trabalho. Ela não está inserida ou enquadrada num contexto de contentamento e de final de semana. Quando o livro for tão importante quanto um domingo, com certeza os níveis de leitura no Brasil serão muito mais elevados.

    JP – Algumas pessoas e municípios têm promovido ações visando estimular a leitura. Aqui em Brasília, por exemplo, foram criadas minibibliotecas nas paradas de ônibus. Qualquer pessoa pode pegar um livro para devolver outro dia, sem burocracia nenhuma. O que você acha desse tipo de ação? Traz contribuições?
    FC – No Rio Grande do Sul a gente percebe que as experiências estão dando certo há décadas e décadas, que é a valorização do escritor. As escolas adotam escritores gaúchos, eles vão dar palestras, toda a cidade tem uma feira do livro. Há esse contato miúdo de conversa num trem, no ônibus, na rua, sem prefácio ou pós-fácio ou orelhas. Há uma identificação da leitura com o seu meio. Isso é feito de todo um trabalho de humanização do autor, que é um mediador carismático da sua obra. O livro é um cofre que às vezes nem o autor sabe o segredo para abrir. E isso é bonito, porque o livro não é um cofre e nem um altar. Eu acho que ele precisa ser uma estante virtual, no sentido do que ela passa para as pessoas. Uma estante não tem portas para que a gente possa arrancar mais facilmente o livro dali. A gente ainda trata a estante como se fosse um armário fechado.

    Os índices de leitura do Rio Grande do Sul são os mais elevados do país. Eu acho que isso ocorre em função da leitura de jornal, dessa integração entre escola e autor, pela multiplicação de feiras do livro. Ou seja, há a necessidade de ter no calendário de qualquer cidade uma feira aberta ao público com descontos, promoções e conversas com escritores. Essa mobilização da cidadania é importantíssima porque a pessoa é que tem que escolher ler, porque se não for uma escolha não há reincidência. É uma necessidade espontânea. Não é fazer isso pelos outros, porque é importante para o trabalho, para família. A gente costuma delegar ao livro uma importância, para não assumir a nossa própria autoria.

    Jornal do MEC, entrevista de capa, Portal do Professor, 19/06/2009

    11:07 AM :: Comentários:

    RUFFATO EM PORTO ALEGRE


    É óbvio que o romancista não autorizou o uso dessa imagem

    O irmão e flamenguista Luiz Ruffato, um dos grandes nomes da narrativa contemporânea, premiado com Jabuti, Biblioteca Nacional e Associação Paulista dos Críticos de Arte, está conduzindo Curso de Escrita Criativa neste sábado (27/6) na Clínica Verri (Rua Tobias da Silva, 267/506, Moinhos de Vento), em Porto Alegre.

    Seis horas de prosa gostosa e labuta de texto com autor da série de romances "O Inferno Provisório". Das 9h às 12h e das 14h às 17h.

    Cada um dos participantes deve levar um conto de no máximo 6 mil caracteres para ser discutido na oficina.

    Inscrições em atendimento@clinicaverri.com.br Informações pelo telefone: (51) 3022.4444

    10:37 AM :: Comentários:


    Domingo, Junho 21, 2009

    MANIAS DE UMA LOJA DE SAPATOS
    Arte de Andy Warhol

    Fabrício Carpinejar



    Entro numa loja, escolho dois pares depois de investigação minuciosa pela vitrine, estantes e pelos pés dos frequentadores. Sim, analiso os pés de quem está na loja para escolher também. Se alguém usa um sapato superior à aquele que vou comprar, já não levo. Se alguém calça um sapato igual, finjo que não quero mais. Consumo a mentira de que sou único.

    Tomei um tempo imenso sorteando quais combinavam com a minha personalidade. Se bem que sou capaz de mudar de personalidade para combinar com um par de sapatos. Escolher um de que gosto mesmo é uma arte: fivela, sola, couro, salto, cor, textura. São mais pré-requisitos do que financiamento de imóvel pela Caixa Econômica Federal.

    Eu avistei dois vizinhos de minhas taras. Uma bota preta para fingir que sou durão e um sapato cinza para combinar com colete astronauta. Há sempre uma peça de roupa pedindo par para dançar no seu armário. A vendedora avisou que iria buscar meu número. Sentei no banquinho com olhar de meteoro caindo. O rosto é céu inclinado quando esperamos comprar alguma coisa. É da infância saber se teremos dinheiro ou não, se poderemos ou não levar aquilo que temos empatia.

    Ela veio com seis caixas. Equilibrando-se nos seios. A mecha de seu cabelo ruivo apontava que era ela. Uma mecha surrada de quem pintou o cabelo mais vezes do que necessário ou se separou mais vezes do que amou.

    Por que seis caixas? Eu pedi para experimentar dois! Sempre que uma vendedora chega com mais caixas do que foi pedido com certeza não trará os sapatos pretendidos.

    Pousa com outros modelos que não tem parentesco com o desejado.

    Abriu uma, abriu duas, abriu três, abriu quatro, cinco, seis tampas. Como se fosse meu sapato e não era. Das cores mais extravagantes, dos feitios mais opostos, das formas menos próximas. Mas tratando como se fosse o ideal. Isso irritou minhas sobrancelhas. Tudo o que pedi acabou por ser esquecido.

    - Cadê meus sapatos?

    - É que não tem mais seu número.

    - Então, me diga que não tem meu número e não me deixe esperando...

    - É que poderia gostar de outros modelos?

    - A senhora não pensou que eu OLHEI outros modelos antes de escolher aqueles? Fiquei vinte minutos decidindo...

    - Ai, desculpa. É que você iria embora...

    - Iria embora sem ficar brabo, agora vou embora completamente fulo.

    - Aprendi assim: tem que prender o cliente porque senão ele pensa que não damos atenção e estamos sem vontade.

    - Como?

    - Se eu viesse de mãos vazias, não estaria passando a imagem de que me esforcei para vender.

    - Eu não passei imagem de que compraria somente os escolhidos?

    - Sim, é que tinha que enrolar para ganhar tempo e pensar como posso agradá-lo.

    Neste momento, compreendi que somos iguais a ela e aos costumes do balcão, não adiantava engolir saliva no provador se a vida cuspiria de novo na rua, quando viesse a primeira tosse.

    Carentes, prendemos quem não amamos. Ficamos com uma companhia apesar de não amar, para evitar sermos cobrados pelos pés descalços ou porque estamos sozinhos. Esperando o par perfeito enquanto usamos o que encontramos. O que veio na frente. O que tinha no estoque.

    Grande parte dos casais é ímpar. Vistosamente formando pares trocados, solteiros, improvisados.

    Quando compramos o que não gostamos, concluímos que "dá pro gasto". É uma expressão triste, inconsolável. O equivalente a lamentar que não tinha o que procurávamos. Gastamos o que não é nosso. Gastamos as pernas para justificarmos que permanecemos em movimento, tentando, ocupados.

    Os sapatos são nossas estradas. Não permitem desvios e atalhos, trocas e substituições.

    O amor começa pelos pés. Obsessivo.

    Não levei nada daquela loja.

    1:09 PM :: Comentários:

    TWITTER



    CARPINEJAR: O sol tem cheiro de tangerina no inverno. Vivo descascando as mãos. Tangerina é uma fruta didática. Não há como errar a divisão do gomo.

    Quem deseja me seguir pode recolher meus destroços. Estou lá em comentários breves e feridas.

    1:04 PM :: Comentários:


    Sexta-feira, Junho 19, 2009

    A CARNE É FORTE
    Arte de Max Ernest

    Fabrício Carpinejar



    Eu confessei todos os pecados de velho quando criança.

    Ficar na fila para se confessar já era um despropósito.

    Adivinhava qual era o padre que me ouvia pela voz fanhosa ou pelo sotaque italiano.
    Havia o Alfredo e o Laércio. Padre tinha nome antigo, de moeda da Grécia.
    Nascia e morria num dicionário de Latim.

    Pensava que o sacerdote usava a janelinha de proteção por estar gripado.

    Vivia gripado.

    Todos os meus pecados eram um único: bater punheta. Mudava apenas o dia e o horário.

    Não, não dizia bater punheta. Eu bati punheta somente quando adulto.

    Eu dizia: eu me toquei, padre.

    "Eu me toquei às 13h, eu me toquei às 18h, eu me toquei às 21h".

    Vivia me tocando.

    Torturado por não ir ao céu, confidenciava por quem me tocava. Acho que não precisava, mas pecado bom é com detalhe.

    O padre conheceu minhas fantasias eróticas melhor do que qualquer mulher. A infância do meu erotismo.

    Quando disse que sonhei com a faxineira da igreja, ele me penitenciou com a maior carga tributária de ave-maria e pai-nosso do bairro, o que sugere que estaria apaixonado por ela.

    Largava o mesmo conselho diante da minha sucessão ejaculatória: "Pára de coçar, menino. A carne é fraca, querido, a carne é fraca".

    Até hoje não posso ouvir a palavra coçar que sou transportado pelo riso para a sacristia da Igreja São Sebastião.

    Depois de dois casamentos, mereço uma conversa séria com o menino que fui.

    Podemos casar sem sexo. Mas amar depende de sexo forte e intenso. A alma é complacente, logo aceita qualquer migalha. O corpo, não. Orgulhoso de seu gosto, briguento, ferrenho. Não descansará se não for saciado.

    O corpo tem muito espaço para ser escrito. Não esquecemos do que foi lido em nossa nudez.

    Se o cheiro não atrai, inútil apelar para as gentilezas.

    É o cheiro que chama, o cheiro que abraça, o cheiro que aperta. O cheiro das pernas, o cheiro da nuca, o cheiro dos cotovelos, o cheiro dos joelhos.

    O cheiro da voz beijando, lambendo, chupando.

    Sou forçado a avisar a criança da década de 70 - antes que ela se perca de novo - que a carne é forte e a alma é fraca.

    No paraíso ou no inferno, quero o estorno de meus pecados. Tenho crédito em a ver.

    9:36 AM :: Comentários:


    Quinta-feira, Junho 18, 2009

    SUPERIOR/MELHOR



    O Corinthians derrotou o Inter, estou de ressaca, mal terei condições de acenar aos gremistas nesta quinta (18/6). Ainda assim não deixarei de escrever sobre a final da Copa do Brasil.

    Perco a partida, não perco a elegância.

    Jogue reflexões comigo no Rolo Compressor.

    "Porque o Inter foi superior ao Corinthians, mas o Corinthians foi melhor do que o Inter. Como isso?
    Ser superior não é o mesmo que ganhar o jogo. Ser melhor não é o mesmo que dominar a partida."


    10:40 AM :: Comentários: